Eixos e refúgios: notas sobre o bolsonarismo para 2022 (parte 3/3: neoliberalismo)

O tratamento neoliberal da crise, de Levy a Guedes, fez dobrar o número de desempregados e aumentar vertiginosamente o número de pessoas abaixo da (baixíssima) linha da pobreza.

Esta é a terceira e última parte da sequência de textos com considerações sobre os eixos do bolsonarismo para a conjuntura de 2022. No primeiro texto, dissertou-se sobre os componentes clericais e religiosos do bolsonarismo; no segundo, tratou-se do tema da corrupção, procurando municiar o leitor de argumentos que demonstram a bandidagem bolsonariana. Desta vez, o assunto é a política econômica.

O neoliberalismo de Paulo Guedes, um projeto antipopular

Entre os refúgios dos bolsonaristas liberais que procuram aparentar alguma civilidade, está a ideia de que o choque de austeridade promovido por Paulo Guedes seria salutar para uma economia supostamente devastada pelo PT. Na mentalidade dos adoradores do deus mercado, Bolsonaro só não foi bem-sucedido por causa da pandemia. Não por acaso, o próprio presidente se esforçou ao máximo para sabotar o combate à disseminação da Covid-19, a fim de poder utilizar a pandemia como desculpa para a absoluta incompetência em termos de política econômica e de manter a narrativa de que haveria inimigos internos que impedem o crescimento do Brasil.

Cumpre, portanto, analisar dois aspectos da referida mentalidade que faz vista grossa para as besteiras do banqueiro Paulo Guedes. O primeiro é o fato de que já havia estagnação antes da pandemia, o que mostra que, se o país não cresceu nem se recuperou, a culpa não é só da Covid-19. O segundo aspecto é como o neoliberalismo conseguiu ser internalizado pelos mais diversos setores que hoje são totalmente vulneráveis à manipulação da direita. 

Quando Dilma venceu as eleições de 2014 (e até antes), ela sentiu o efeito da redução dos preços das commodities vendidas pelo Brasil e da redução do consumo das famílias, bem como viu naufragar a política de estímulo à indústria nacional (que estava mais vinculada ao capital financeiro do que ao investimento público). Como resposta, adotou uma política de austeridade neoliberal, encabeçada por ninguém menos que Joaquim Levy, chicago boy que entrou para o governo a fim de cortar gastos sociais, reduzir o crédito de bancos públicos, leiloar empresas estatais, aumentar impostos e tentar trazer de volta o superávit primário. Em resumo, uma economia da carochinha, totalmente oposta à propaganda de campanha. 

Essa política foi aprofundada por Michel Temer e Henrique Meirelles, sob o nome de governo de “salvação nacional” [1] – que, na verdade, era um plano liberal de estabilização, baseado na continuidade das políticas representadas por Levy e na proposição de reformas profundas, como a tentativa de destruição da previdência e a emenda do teto de gastos, que nos estrangula até hoje. Tudo prometendo atrair investimentos e gerar empregos. Nem estes foram criados (o desemprego aumentou) nem aqueles aconteceram em volume suficiente (o país passou a viver, novamente, fuga de capitais). 

Seria a política econômica de Bolsonaro uma ruptura, tendo em vista a onda liberal que avassala o país desde a decadência do governo Dilma? Hoje, o que está cristalizado na memória coletiva é uma economia incapaz de crescer e se desenvolver por causa das restrições e dificuldades impostas pela pandemia. Em 2019, contudo, o panorama era um pouco mais claro. No início daquele ano, o capital se empolgou com a chegada de Bolsonaro ao Planalto – parecia a marionete perfeita. A mídia burguesa tratou de relatar a ascensão do Ibovespa em 10% nos primeiros seis meses. O motivo? Promessas de privatizações, anúncios de cortes no sistema de bem-estar social e uma feroz propaganda em prol da rdeforma da Previdência, que acabou sendo aprovada. Os resultados? A economia recuando 0,1% e os investimentos caindo 1,7%. 

Charge feita pelo Bira, chargista, cartunista, quadrinista e ilustrador paulistano.

O tratamento neoliberal da crise, de Levy a Guedes, fez dobrar o número de desempregados e aumentar vertiginosamente o número de pessoas abaixo da (baixíssima) linha da pobreza. O IBGE, apesar de estar sob pressão do governo Bolsonaro (perito em deturpar e omitir dados), conseguiu divulgar, em novembro de 2019, que o Brasil havia chegado ao número de 13,5 milhões de pessoas em “extrema pobreza” (renda mensal per capita de menos de R$145,00). Um resultado pífio, mas não surpreendente, haja vista a persistência do recuo dos mercados das commodities e a demanda efetiva reprimida pela austeridade [2]

Assim sendo, quando um jornalão da burguesia, como o Valor Econômico, diz (em novembro de 2021) que “o número de desempregados no Brasil como reflexo da pandemia (…) chegou a ultrapassar as 15 milhões de pessoas”, ou quando um bolsonarista qualquer, confesso ou não, usa a pandemia para tentar explicar o mau desempenho econômico do governo, não se deve deixar de apontar que se trata de dissimulação fajuta, esquecimento induzido pela mais chula naturalização da desgraça. Porém, cirúrgico mesmo foi o ministro offshore, quando descreveu, em março de 2020, nossa situação: é “um câmbio que flutua. Se fizer muita besteira pode ir para esse nível (5 reais).” Quando Bolsonaro assumiu o cargo, o dólar comercial estava a R$3,87. Em 2019, chegou à casa dos quatro reais, valorizando-se ainda mais em 2020, quando chegou a beirar os seis reais. De lá para cá, não saiu mais da casa dos cinco reais. Hoje, depois de 6 recuos semanais, o dólar está em R$5,12 [3]. A besteira ainda pesa.


Notas:

[1] Em cerimônia bizarra de nomeação dos ministros, Temer disse: “É urgente fazermos um governo de salvação nacional”. Acrescentou, ainda, que objetivava “estancar o processo de queda livre da atividade econômica e melhorar significativamente o ambiente de negócios do setor privado, para produzir mais e gerar mais emprego e renda.” O discurso envelheceu mal.
O registro é da BBC News e foi publicado no UOL em 12 de maio de 2016. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/bbc/2016/05/12/e-urgente-fazer-governo-de-salvacao-nacional-afirma-temer-ao-empossar-ministros.htm. Acesso em 25 jan. 2022.

[2] Os dados sobre a ascensão do Ibovespa, sobre o recuo da economia e sobre a queda dos investimentos estão citados em ANDERSON, Perry. Brasil à parte. São Paulo: Boitempo, 2020. p. 169-170.

[3] Dados do site https://www.dolarhoje.net.br/dolar-comercial/

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