Eixos e refúgios: notas sobre o bolsonarismo para 2022 (parte 2/3: corrupção)

A astúcia da tática eleitoreira do bolsonarismo foi transformar um homem do sistema, com três décadas de puro fisiologismo e prevaricação, em um elemento supostamente contrassistêmico.

Dando continuidade à sequência de textos sobre os eixos do bolsonarismo e os tópicos que se tornaram clichês nos discursos dos bolsonaristas (isso inclui os envergonhados e os orgulhosos), publicamos uma breve e não exaustiva abordagem a respeito da suposta “honestidade” do presidente. Certamente, a ponta de um iceberg.

Honestidade e “surpresa”: um governo sem (pouca) corrupção

Bolsonaro se elegeu vendendo sua imagem como homem simples, “honesto”, com “deus no coração” e “patriota”. A parte do “simples” é bem justa, dada a limitação intelectual do parasita. Já da parte do “patriota” nós tendemos a rir, porque, em plena campanha, ele já prestava continência para a bandeira estadunidense, como vira-lata que é. Ademais, como visto no texto anterior, em vez de ser temente a deus (seja lá o que isso signifique), Bolsonaro teme, na verdade, perder os votos de deus – seja de qual matriz religiosa forem. Mas a questão da “honestidade” parecia ser um foco especial dos discursos dos bolsonaristas mais empolgados. 

Há, porém, duas acepções para essa tal “honestidade”. Uma delas dá razão aos bolsonaristas de 2018 e desqualifica os que hoje tentam se livrar da vergonha de terem apoiado Jair Messias: Bolsonaro é mesmo “honesto” em alguns pontos, principalmente para falar coisas absurdas. Essa “honestidade” parcial do parasita desqualifica a fala de quem se diz surpreendido pelo que Jair efetivamente fez no governo. A verdade é que, muito antes das eleições, Bolsonaro já dizia aos quatro ventos quem era e a que vinha:

  • Eu sou favorável à tortura” e “Sonego tudo o que for possível” – em entrevista na TV, defendendo que quem ficasse em silêncio na então CPI (em 1999, no governo FHC, que ouvia Chico Lopes, ex-presidente do Banco Central) fosse torturado. Ironicamente, vários aliados de Bolsonaro ficaram em silêncio na CPI da COVID, em 2021.        
  • Pela memória do Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra” – fala na votação do golpe contra a presidenta Dilma, na Câmara, quando Bolsonaro, além de saudar um torturador, elogiou Eduardo Cunha, cuja corrupção já havia sido escancarada pela revelação de quatro contas secretas na Suíça e outra nos Estados Unidos, sem falar na frota local de limusines e SUVs de luxo registradas em nome de duas empresas no Rio de Janeiro, uma das quais tinha o curioso nome de “Jesus.com”. 
  • “[O policial] entra, resolve o problema e, se matar 10, 15 ou 20, com 10 ou 30 tiros cada um, ele tem que ser condecorado, e não processado” – Em entrevista ao Jornal Nacional. 
  • “Não existe essa historinha de Estado laico, não. É Estado cristão! E quem for contra que se mude!” – atentando contra a laicidade do Estado e a diversidade religiosa em comício.
  • “‘Ah, é homofobia!’ Isso nem existe” – em coletiva de imprensa. 
  • “Fui num quilombola em Eldorado Paulista. O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada! Acho que nem para procriadores servem mais” – no clube judaico Hebraica, na Zona Sul do Rio de Janeiro.
  • “Como eu estava solteiro na época, esse dinheiro do auxílio-moradia eu usava para comer gente” – em entrevista à Folha de São Paulo, reexibida na vexaminosa entrevista à GloboNews durante a campanha de 2018. 

Há dezenas de frases como essas, ditas por Bolsonaro, que poderemos ler em voz alta para quem disser que ficou surpreso com a atuação do presidente. Só ficou mesmo surpreso quem efetivamente não teve acesso a quaisquer redes de informações apuradas. Mas esse não é o caso dos que normalmente procuram se justificar hoje em dia. O outro aspecto da “honestidade” do presidente é a farsa dessa alegação quando o tema é probidade. Dizendo de maneira mais direta: quando o assunto é corrupção, seu governo foi repleto de escândalos. Podemos mencionar:

  • O uso de disparos em massa de mensagens de texto automatizadas via Whatsapp impulsionados com dinheiro não declarado de empresários apoiadores; 
  • O laranjal administrado por Gustavo Bebbiano e Marcelo Álvaro Antônio na campanha; 
  • O estranho e inexplicável enriquecimento da família Bolsonaro mediante sua inserção na política institucional;
  • O recebimento e a lavagem, em 2014, de 200 mil reais provenientes da JBS – o episódio, jocosamente relatado por Ciro Gomes, em 2018, fez Bolsonaro admitir que o seu então partido, o PP (Partido Progressista, do “centrão” com o qual Bolsonaro prometeu não se aliar), recebia propinas;
  • O vergonhoso roubo do dinheiro da Câmara destinado à gasolina, em 2009, na época em que Bolsonaro era Deputado. A reportagem investigativa veio à tona em abril 2020 na Agência Sportlight, com direito a digitalizações das notas fraudadas por Jair, que, conforme consta, só em um dia, 7 de janeiro de 2009, abasteceu incríveis 1.003,46 litros de gasolina – Para se ter uma ideia, em Patos de Minas, seguindo o preço médio registrado pela ANP, em 25 de janeiro de 2022, Bolsonaro teria abastecido mais de 7 mil reais em um único dia, de uma só vez;
  • Os mais de 900 servidores expulsos pela própria Controladoria Geral da União por corrupção; 
  • Os inexplicáveis 89 mil reais depositados na conta de Michele Bolsonaro por Queiroz e sua esposa, Márcia Aguiar; 
  • O ministro do Meio-ambiente, Ricardo Salles, envolvido em um esquema de venda ilegal de madeira e entusiasta de “passar a boiada” da impopular devastação ambiental durante a pandemia – que, sob investigação, pediu demissão, em junho de 2021 sendo, porém, elogiado pelo presidente; 
  • A estranha venda de uma carteira de dívidas atrasadas a receber de 2,9 bilhões ao BTG Pactual (banco do Ministro Paulo Guedes) por apenas 371 milhões (desconto de 87%) – operação na qual não houve transparência;
  • O notoriamente vantajoso negócio de Paulo Guedes, ministro da Economia, sendo proprietário da offshore Dreadnoughts International, num paraíso fiscal no Caribe. O caso foi revelado no escândalo dos Pandora Papers, uma investigação jornalística internacional da qual participou a Revista Piauí, que publicou sobre o assunto em outubro de 2021, ressaltando como o ministro se beneficia privadamente das políticas do governo;
  • A compra irregular de vacinas da Covaxin, em prazo recorde, acima do preço de mercado e com o, no mínimo, curioso, atraso concomitante para aquisição de outras vacinas, mais baratas;
  • O esquema de compra de votos de parlamentares, por meio de um orçamento paralelo de distribuição de 3 bilhões de reais em emendas parlamentares que foram destinadas à compra de equipamentos agrícolas superfaturados. O apelido carinhoso do esquema é “tratoraço”. 

(precisamos continuar?)

Todos esses fatos, os quais bolsonaristas (envergonhados ou orgulhosos) fazem malabarismos para tentar explicar, mostram que, se Bolsonaro ainda não foi preso, é por ter poder e dinheiro – não por honestidade. Mas como a mente de um bolsonarista fanático ou de alguém colonizado pelo liberalismo justifica a vista grossa para as corruptelas de Seu Jair? Simples: com todos os seus defeitos, na visão dessas pessoas manipuladas, Bolsonaro seria a única alternativa a uma corrupção sistêmica que envolvia tanto os partidos da ordem (PT, PSDB, MDB, DEM). Obviamente, sabemos que essa visão é absolutamente falsa, visto que Bolsonaro é, ele próprio, um fruto do baixo clero, isto é, de uma parte do centrão que está à venda desde a origem da estrutura partidária, aceitando propinas e favores de quem quiser comprar sua influência.

Cega por uma visão em que a política institucional – uma mesa redonda cheia de interesses diversos e conflitantes – se resumiria a dois lados simetricamente opostos, os catequizados pelo bolsonarismo e pelo neoliberalismo fervoroso entendem que a “corrupção” é inerente ao lado oposto ao deles. Esse lado inimigo deles é o do PT, mas é também o que, em 2018, correspondia ao “tudo o que está aí”. A astúcia da tática eleitoreira do bolsonarismo foi transformar um homem do sistema, com três décadas de puro fisiologismo e prevaricação, em um elemento supostamente contrassistêmico. Some isso ao apoio da burguesia financeira, dos industriais (que a centro-esquerda desenvolvimentista tanto tentou e tenta bajular), dos latifundiários e dos vendilhões do templo e temos o rebento do processo de deterioração do pacto de classes costurado na era petista: Bolsonaro, um presidente que é corrupto, acha ser deus e, dizendo-se patriota, destrói intensivamente a economia (naquilo que importa para o povo) e mina a capacidade de recuperação e soberania do país.

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