Um 7 de setembro: dois brasis

Quase duzentos anos depois dessa tal independência, o que teríamos afinal para comemorar enquanto classe trabalhadora? A falta de emprego? Ver o prato de comida vazio? Não ter um teto sobre a cabeça? A demora na vacinação? A tripla jornada de trabalho das mulheres? O genocídio da população negra e indígena? A discriminação das pessoas LGBTs?

Ontem foi 7 de setembro, dia em que se comemora a independência do Brasil. A natureza e extensão desse fato que compõe nossa memória histórica pode ser visto e ouvido nas ruas da cidade de Patos de Minas ao longo de quase todo o dia.

Logo pela manhã, assistimos à passeata pró-Bolsonaro, cujo ponto central de circulação foi a Avenida Major Gote. Utilizando carros, motocicletas e caminhões, os adeptos do (ainda) presidente da República, foram para as ruas gritar e buzinar em defesa de um Brasil, supostamente vitimado por um “golpe” arquitetado pelo “comunismo internacional”. Contra os arquitetos de tal “golpe” – que vão desde os ministros do STF até os quadros políticos do PT, passando pelos “ideólogos de gênero” e os militantes “cristofóbicos” – homens e mulheres bradavam palavras de ordem em prol do voto impresso, da intervenção militar constitucional (como se isso existisse) e do fim da obrigatoriedade da vacinação.

De dentro dos seus confortáveis automóveis, a burguesia patense acreditava reproduzir o gesto quase bicentenário do então regente Pedro de Alcântara, que, “às margens do Rio Ipiranga” teria gritado: “Independência ou Morte”. Assim como Pedro teria rompido com Portugal, a elite local acreditava estar dando um passo a mais para romper com o “comunismo internacional”. Nesse delírio, somente quando o rompimento de fato se efetivar é que o Brasil voltará a florescer novamente. Pelo menos isso é que pude deduzir das falas que eles gritavam, isto é, urravam enquanto desfilavam pela principal avenida de Pari… ops Patos.

Não foram uma, duas ou três vezes que pensei, em voz alta, enquanto os automóveis passavam: “Só Freud explica! ” Mas, como não tem Freud, eu mesmo tento explicar. O que esses delírios ocultam ou revelam (depende da perspectiva de onde se olha!) são, na verdade, fatos bem mais comuns do que se pensa, dispensando inclusive o domínio completo da psicanálise para analisá-los. Sob a capa dessa fúria odiosa, localizamos o ressentimento dos poderosos. Esse ressentimento surge entre aqueles que sentem que seus privilégios tradicionais estão desaparecendo por causa da aquisição e/ou ampliação de direitos sociais por parte dos grupos subalternos. 

Trata-se do professor universitário que quer continuar escravizando a empregada doméstica negra; do médico que quer continuar traindo a esposa; da blogueira que quer continuar fazendo voos exclusivos; do político que quer continuar despejando sua LGBTfobia; do ruralista que quer continuar perseguindo trabalhadores sem-terra … Mais do que indivíduos específicos, são tipos sociais que alimentam e são alimentados pela pequenez que encerra o horizonte político de Patos.  Esse é o Brasil que os cidadãos de bem, ou melhor, que os cidadãos com bens desta cidade foram para as ruas defender e exaltar. 

Enquanto os últimos carros que realizavam a passeata pró-Bolsonaro esvaziavam a Avenida Major Gote, no período da tarde, dezenas de pessoas se dirigiam à orla da Lagoa Grande para participar de outro ato. Com faixas nas mãos, bandeiras e megafones no gogó da garganta, militantes de movimentos sociais, partidos e organizações políticas de esquerda se encontraram no ponto central da Lagoa, abrigados por frondosas árvores, para gritar “FORA, BOLSONARO!

Estavam ali para protestar contra a farsa da independência – a de ontem e a de hoje. Quase duzentos anos depois dessa tal “independência”, o que teríamos, afinal, para comemorar enquanto classe trabalhadora? A falta de emprego? Ver o prato de comida vazio? Não ter um teto sobre a cabeça? A demora na vacinação? A tripla jornada de trabalho das mulheres? O genocídio da população negra e indígena?  A discriminação das pessoas LGBTs? Naquele dia, essas foram algumas das muitas perguntas levantadas pelas diversas vozes que se ergueram para apontar a relação umbilical do bolsonarismo com o capitalismo, o machismo, o racismo e a LGBTfobia. 

Ali realmente estava o Brasil que eu gostaria de comemorar: o Brasil em que cabem todos os brasis: o da classe trabalhadora, o das mulheres, o dos negros, o dos indígenas, o dos LGBTs… das pessoas que, mesmo em meio a tantas dores, sofrimentos e percalços ainda insistem em construir um Brasil igualitário, livre e diverso. Em algum momento do ato, um companheiro retomou este pensamento, mas, o finalizou reafirmando a necessidade de reunir todo o Brasil novamente, apelando para que todas as pessoas ali presentes se mobilizassem para que, em 2022, retirássemos, por meio das urnas, o fascista-mor do posto máximo do executivo. 

Em relação a isso, gostaria de estabelecer uma crítica fraternal. Ora, alguma vez o Brasil já esteve unido? O recurso ao voto já permitiu a conquista dos (sempre parcos) direitos sociais que os grupos subalternos têm? É possível pensar uma democracia, no sentido significativo do termo, sem eliminar as profundas desigualdades de classe, raça, gênero e sexualidade que estruturam nossa sociedade? Para mim, a resposta é não!

A agudização das polarizações que vivenciamos nos últimos anos traz uma preciosa lição, que tem passado despercebida por grande parte da esquerda: os de baixo nunca encontrarão sua libertação recorrendo aos esquemas criados pelos de cima. São eles próprios que devem forjar outros esquemas, pela sua ação autônoma e direta.

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