O anarquismo crescendo em Minas Gerais

Coletivo lança carta fazendo apelo às/aos anarquistas de Minas Gerais para que se organizem para a luta no estado

“Levamos um mundo novo em nossos corações. Esse mundo está crescendo nesse momento!”, disse Buenaventura Durruti em um dos momentos mais significativos do sonhar libertário vivenciado no início da guerra civil e revolução social da Espanha, no já distante ano de 1936. Entendendo que a transformação almejada pelo anarquista não remetia a uma sociedade perfeita num futuro indefinido, mas sim que resultava de um processo contraditório que se principiava no presente, o anarquista leonês chamava a atenção para a necessidade da ação e organização direta das(os) exploradas(os) e dominadas(os) no aqui e agora.

Tal pensamento, tão sintético quanto poderoso, constitui o mote do CHAMADO ÀS/AOS ANARQUISTAS EM MINAS, recentemente lançado pelo Coletivo Mineiro Popular Anarquista – COMPA. O chamado em questão tem como objetivo atrair e coordenar as e os anarquistas que se encontram espalhados pelo Estado de Minas Gerais. Para tanto, se propõe a levar a cabo o conhecimento das realidades locais e o estreitamento dos laços  entre a capital e o interior, discutir táticas de luta e contribuir com aportes organizativos. Somente assim, entende que é possível

“formar uma onda que ecoe por cada rincão dessas Minas Gerais, reproduzindo a voz daquelas e daqueles que sempre foram silenciados e, principalmente, arrancando com ORGANIZAÇÃO E LUTA a trilha para a LIBERDADE!!!! – como sempre foi!!!!!”

O COMPA surgiu em Belo Horizonte, no ano de 2012, a partir da atuação de militantes anarquistas que atuavam nas lutas sociais naquela conjuntura. Sua fundação formal ocorreu durante o Seminário de Formação Política do Fórum do Anarquismo Organizado – FAO, da Região Sudeste, realizado no Centro de Cultura Social do Rio de Janeiro, no mesmo ano.  Foi nessa ocasião que o coletivo formalizou sua vontade de fazer parte do FAO (hoje Coordenação Anarquista Brasileira-CAB), aderindo assim ao Anarquismo Especifista. Como consta na definição da sua Carta de Princípios, o especifismo é uma estratégia que


“divide a militância anarquista em níveis e torna indispensável a inserção social e dos anarquistas nas lutas populares. No nível social, soma sua militância a lutas populares em Minas Gerais. No campo especificamente político, serve como o espaço para que as/os anarquistas se organizem a partir do federalismo e autogestão, para orientar estrategicamente suas atuações nos movimentos que participam”

De acordo com Thiago Miranda, militante do referido Coletivo, ao longo destes quase oito anos de existência, o COMPA esteve presente em diversas lutas na região metropolitana de Belo Horizonte. No nível social, em 2013, ajudou a fundar a “Frente Terra e Autonomia”, que desenvolveu um importante trabalho junto à ocupação urbana “Guarani Kaiowá”  (Contagem) e o Espaço Comum Luiz Estrela (Belo Horizonte). Além disso, conta que o Coletivo atuou também na construção de lutas da juventude e de transporte público. Hoje, concentram sua militância no MOB – Movimento de Organização de Base (antiga “Frente Terra e Autonomia”) e se encontram presentes em diversas regiões da cidade, tanto em ocupações urbanas, como em bairros, vilas e/ou favelas e também em centros culturais. Desde o ano passado, suas/seus militantes também se fazem presentes na Resistência Popular-MG, que “é aberta a todo e qualquer tipo trabalhador, mas hoje agremia principalmente trabalhadores da Rede Estadual de Educação”, esclarece Thiago Miranda.

No nível político, o coletivo mantém a “Livraria Anarquista Avelino Fóscolo” e a “Biblioteca Anarquista Maria Lacerda de Moura”. Para além de render homenagem a dois grandes nomes do movimento libertário, ambos os projetos visam propagar a teoria e prática da filosofia política anarquista por todo o estado mineiro. “Em conjunto com outros coletivos”, diz ele, “já realizamos três edições da “Feira Anarquista de Belo Horizonte”. Além disso, comenta sobre o CFA “Curso de Formação Anarquista” – realizado tanto de forma presencial quanto remota – e o COMPA-DEBATE, “no qual o coletivo leva a público a sua percepção sobre um determinado tema e posteriormente abre a discussão para o debate público entre os presentes”.

O militante anarquista afirma que os primeiros ecos do chamado já foram ouvidos. “Já recebemos” disse ele “mensagens de muitas cidades, inclusive Patos de Minas”. O primeiro passo para quem quiser participar do processo é entrar em contato com o COMPA por meio do e-mail aycarmela@riseup.net . Em princípios de 2021, está prevista a realização de um Curso de Formação Política, quando os novos ingressantes poderão conhecer melhor o programa do Coletivo.

Thiago Miranda encerra lembrando que “Anarquismo é a expressão máxima da organização e a única expressão política capaz de evitar a tirania, respeitar as pessoas em suas individualidades e desenvolver entre todas e todos a Liberdade com Igualdade. A união é a receita mais básica para essa conquista e esse primeiro passo damos ao nos reunir à esse chamado”.

Deixar uma resposta