Refugiados Venezuelanos Em Patos De Minas  

aproximadamente 24 pessoas, entre bebês, jovens, adultos e idosos, todos venezuelanos, chegaram na cidade recentemente

Para quem busca se inteirar das notícias da nossa cidade, é sabido que houve um número crescente de refugiados venezuelanos que cá estavam e solicitaram nossa ajuda – uma ajuda que o povo patense o fez prontamente, solidarizando-se.

É interessante frisar que, segundo informações da população local, estavam entre os refugiados aproximadamente 24 pessoas, entre bebês, jovens, adultos e idosos, e que boa parte destes estariam na cidade desde junho deste mesmo ano. No último dia 11/12, veio a conhecimento de todos que estes teriam deixado a cidade, sem explicações. 

Devo dizer, de início, que houve aqueles que se regozijaram de termos tais pessoas tão próximas a nós, geralmente, endossando um discurso errôneo sobre os motivos pelos quais venezuelanos acabam tendo a difícil escolha de sair da sua pátria, enchendo a boca para culpar e demonizar um Governo dito de Esquerda. Outros patenses por sua vez, se manifestaram revoltosos com a suposta ingratidão dos refugiados, quando souberam da sua partida, uma vez que boa parte dos donativos foram abandonados.

Ora, Ora: como é pífia a caridade de alguns, que doam esperando algo em troca, pois se lembraram logo que os venezuelanos eram “refugiados”. Refugiados que, por vezes, os brasileiros receberam com hostilidade, ou viram neles uma oportunidade de explorar sua mão de obra barata.  A abordagem deste texto será focada em condicionantes que perpassam a história dessas pessoas.

Quero discorrer sobre o assunto em âmbito de esclarecimento sobre questões que tangem do passado a atualidade do governo venezuelano.  

“Estado Mágico”

Há um conceito formulado por um grande intelectual venezuelano, Fernando Coronil, que é o de “Estado mágico”. Veja bem: a Venezuela tem a maior reserva de petróleo do mundo, a economia basicamente vive da extração desse petróleo, cujo maior interessado nas últimas décadas são os Estados Unidos, em uma relação unilateral. Nessa relação, mesmo sendo a Venezuela o fornecedor, não é o único fornecedor de petróleo para o Estado Norte Americano. Logo, ficou fácil saber quem dá as cartas do jogo.

O conceito formulado por Coronil explica o porquê de a Venezuela ter a capacidade de ser o país mais rico da América do Sul: tem uma “fonte natural de moeda”, petróleo negociado a dólar. Por conseguinte, há um fluxo muito grande de dólares entrando no país, o que faz com que outros setores econômicos não tenham o interesse em produzir outros bens, pois o investimento é menos lucrativo, uma vez que tudo relacionado ao petróleo rende muitíssimo mais. Consequentemente, a importação de produtos industrializados tornou-se muito mais barata do que produzir em solo pátrio venezuelano, o que acarretou um desenvolvimento insuficiente da indústria interna. A Venezuela tem, portanto, uma formação econômica voltada para a importação de bens, desde artigos de luxo até itens de primeira necessidade da vida cotidiana.

Percebe-se, então, que essa dependência de um único produto, o petróleo, somada ao comportamento importador das “elites rentistas” implicou também importação dos padrões de consumo. Isso explica alguns hábitos culturais bem diferentes do restante da América Latina , como a preferência pelo beisebol, em vez do futebol, por exemplo. O conceito de Coronil também serve para explicar de onde vem e como é frágil a riqueza de um Estado que se permite depender de um único produto. Na Venezuela, o Estado se comporta como um transformador dessa riqueza negra em benefícios tanto para as elites quanto para o trabalhador comum.

Histórico político

Voltemos um pouco na história da Venezuela, para que possamos ter  uma compreensão mais clara, indo além do senso comum que se ouve e vê aqui no Brasil. Nessa direção, meu intuito é trazer informação e clareza, e uma advertência.

O contexto começa no firmamento do Pacto de Punto Fijo (1958), pacto político feito pelos três maiores partidos do país, que  definiram que aqueles que não obtivessem êxito nas eleições aceitariam os seus resultados. O objetivo era manter a estabilidade política, o que até se concretizou, inclusive salvando  a Venezuela de vivenciar  uma ditadura militar. Diferentemente do que  ocorreu na década de 1970 em boa parte da América Latina, o estreitamento das relações da Venezuela com os Estados Unidos, assegurou  hegemonia do último sobre o primeiro, dispensando uma intervenção violenta.

Essa estabilidade política, no entanto,  se deu às custas de um revezamento entre grupos familiares no poder. O principal efeito dessa permanência prolongada das oligarquias no  poder foi a quase privatização do Estado, que passou a funcionar apenas para si e seus aliados políticos. Logo, a estabilidade democrática foi acompanhada de um crescente clientelismo  (favorecimento de cargos em troca de favores políticos), somado a uma forte onda de corrupção, o que diminui consideravelmente os recursos advindos do petróleo para a sociedade.

Havia naquele momento um pleno neoliberalismo radical em movimento, representado pelo então presidente Carlos Andrés Pérez. A esse respeito, o governo de Pérez executou um severo plano de ajuste estrutural, orientado pelo FMI. O pacote incluía a desvalorização da moeda nacional (o bolívar), redução do gasto público e do crédito, liberação de preços, congelamento de salários e aumento dos preços de gêneros de primeira necessidade. A gasolina sofreria um reajuste imediato de 100%. Isso resultaria, segundo anunciado, numa majoração de 30% nas tarifas de transporte coletivo. Na prática, esses reajustes chegaram também a 100%.

Sua política de austeridade causou grande insatisfação e instabilidade política, o que culminou no evento denominado de “Caracazo”,uma revolta espontânea e popular, que teve seu ponto de estopim no aumento da passagem do transporte público. Houve forte repressão, uma ‘obra’ sangrenta, como Chávez se referiu ao evento na época. 

O evento demonstrou que o governo neoliberal de Perez estava impraticável, o que culminou na tentativa de intervenção, em 1992, por Hugo Chávez e seus companheiros. Tentativa mal sucedida que culmina na prisão de Chávez. No entanto, Pérez cairia no ano seguinte, por meio de um processo de impeachment.

Chávez, então, seguiu o rumo democrático e foi eleito, assumindo em 1999, e sendo reeleito por quatro mandatos consecutivos. Em seu governo, Chávez financiou diversos programas sociais, enfrentou a oposição e tornou-se um polo de resistência ao domínio da Casa Branca e do neoliberalismo na América Latina. 

Importante frisar aqui que Chávez tomou para si o espectro e a luta de Simón Bolívar, herói da independência Venezuelana, daí a adoção do termo “bolivarianismo”. O caráter anti-imperialista, principalmente contra o imperialismo estadunidense, é um ponto chave para o entendimento do que se passa hoje no país.

Durante o Governo de Chávez, este sofreu diversas tentativas de golpes da oposição, sobretudo aquela que tinha origem na velha oligarquia rentista. Sem pudores em arruinar a economia venezuelana para atingir seus objetivos mesquinhos, estiveram por detrás da greve petroleira conhecida como greve do alto escalão, o “paro del petróleo”. A oposição formada por López e Capriles de Ledezma, não demonstra real compromisso com a democracia ou com seu patriotismo.

A Venezuela viveu no início dos anos 2000 uma crescente polarização política, uma forte manipulação midiática e uma escalada na  interferência dos estadunidenses, que buscavam um governo dócil que atendesse a seus interesses. Houve até mesmo uma tentativa de golpe contra o Governo Chávez em 2002, num discurso falso de que tudo era feito com intenções de “raízes democráticas”. Na atualidade, essa pressão externa apoia os grupos de oposição ao governo de Nicolás Maduro.

Contexto atual

Na atualidade, a Venezuela sofre devido ao fato de o governo de Nicolás Maduro se opor ao imperialismo estadunidense. Assim como nós e outros países, a Venezuela sofre os efeitos tardios da crise de 2009, sofre com os desajustes da crise petroleira,  falta de itens de primeira necessidade e o baixo poder de compra, devido aos embargos econômicos e sanções realizadas pelos Estados Unidos e a desvalorização da moeda venezuelana. A oposição não tem uma figura para combater Maduro por vias eleitorais e, por isso, vem tentando via conflitos e tumulto, forçando a miséria da população trabalhadora. A Venezuela vem sofrendo um aumento de conflitos mútuos, o que tem criado um cenário difícil para o diálogo. 

E aqui entra minha advertência: se você chegou até aqui e leu este artigo com olhos abertos, percebeu então o quão próximo da realidade que vive a Venezuela o Brasil está hoje. O Brasil sempre foi um cão dócil dos EUA, apesar do atual Governo Bolsonaro exagerar na sua docilidade, mas isso não nega os fatos: estamos num regime que tem feito da democracia mero meio de estar no poder, mas que obviamente é só a nova forma de como as ditaduras operam no séc. XXI. 

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Referências

Bartley, Kim; Ó Briain, Donnacha (2003). The Revolution Will Not Be Televised

MARINGONI, Gilberto. Chávez, Hugo; Verbetes. Enciclopédia Latino-americana. São Paulo, SP. Disponível em <http://latinoamericana.wiki.br/verbetes/c/chavez-hugo>

MARINGONI, Gilberto. Perez, Carlos Andrés; Verbetes. Enciclopédia Latino-americana. São Paulo, SP. Disponível em <http://latinoamericana.wiki.br/verbetes/p/perez-carlos-andres

MARINGONI, Gilberto. Petróleo – Crise e dilemas. São Paulo, SP. Ipea Desafios e Desenvolvimento. 2011. Ano 8. Ed. 66.

SANTOS, Fábio Luis Barbosa dos; Uma História da Onda Progressista Sul-Americana (1998-2016). São Paulo. Editor Elefante. 2018

ZERO, Marcelo. Para entender a Venezuela. Brasil Debate. Disponível em <https://brasildebate.com.br/para-entender-a-venezuela/>

 

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