Pride: orgulho LGBT+ e consciência de classe

Filme de 2014 resgata a história real de ativistas gays e lésbicas que se mobilizaram para ajudar um grupo de mineiros em greve

Pride, ou Orgulho e Esperança, na adaptação para o português, é um filme de 2014 do diretor Matthew Warchus sobre ativismo LGBT e luta operária. Ambientado na década de 1980, durante o governo de Margareth Thatcher, o filme narra a trajetória de jovens gays e lésbicas empenhados(as) em ajudar um grupo de mineiros em greve nacional – a história é baseada em fatos reais.

O grupo de ativistas, sensibilizados pela situação dos mineiros grevistas após o fechamento de minas e novas condições de trabalho impostas pelo thatcherismo, fundam a associação de Lésbicas e gays em Suporte aos Mineiros (LGSM) e passam arrecadar fundos para os trabalhadores da categoria, que, de início, constrangidos, recusam a ajuda. Entretanto, o grupo liderado pelo carismático Mark Ashton (Ben Schnetzer) não se deixa abater e insiste em ajudar.

Após um grupo de mineiros galeses também em greve aceitarem a ajuda, ambos iniciam uma jornada de luta e superação, contra um inimigo em comum: o governo neoliberal de Thatcher – a “dama de ferro”, conhecida por seu extremismo e inflexibilidade. É de guardar na memória a cena em que Dai Donavam (Paddy Considine), líder do sindicato e membro do comitê da greve, diz que “o movimento dos trabalhadores deveria significar isto: você me apoia; eu te apoio, quem quer que você seja ou de onde venha; ombro no ombro, mão na mão.

Mas nem tudo são flores. O grupo de jovens londrinos tiveram que se impor em um ambiente majoritariamente machista e homofóbico de homens acostumados ao trabalho braçal e ao conservadorismo de suas esposas. Porém, aos poucos, as barreiras vão sendo quebradas e, juntos, os membros da LGSM conseguem arrecadar recursos, como alimento para as famílias dos grevistas e até uma van para transporte dos mineiros.

Governo de Margareth Thatcher e Neoliberalismo

As cenas no início do filme, os protestos, manifestações e choques com a polícia são reais e foram muito comuns durante a era da primeira-ministra Margareth Thatcher (1979-1990). A líder conservadora impôs uma série de reformas neoliberais, desregulamentações e controle de gastos públicos, se desfazendo de empresas estatais e demitindo milhares de trabalhadores – rompendo com as políticas de bem-estar social do pós-guerra.

A greve dos mineiros abordada no filme durou um ano (1984), mas sucumbiu diante da insensibilidade da “dama de ferro” – que muitas vezes optou por aparatos de repressão para intimidar os trabalhadores. Foi diante dos mineiros que declarou, impassível: “posso até quebrar a Inglaterra, se isto for o preço de vencer este sindicato”. E no final conseguiu a façanha, deixando seu país mais pobre e desigual do que quando entrou.

A luta dos mineiros também não foi a única no período. A eles se somaram siderúrgicos e trabalhadores da indústria naval, todos desempregados vítimas das privatizações. Após o governo da primeira ministra, que deixou o poder extremamente impopular, o número de desempregados e os índices de violência aumentaram e houve quebradeira de pequenas e médias empresas.

Nessa situação se inseriu a população LGBT+, desde sempre marginalizada e oprimida, especialmente naquela época, marcada pelo vírus da AIDS, conhecida como “peste gay”. Mark Ashton, que fundou a LGSM e deu início ao movimento, tornou-se secretário-geral da Liga Jovem Comunista de 1985 a 1986. Diagnosticado com AIDS, morreria um ano depois. Posteriormente, o Partido Trabalhista britânico iria incluir em seu manifesto manifesto os direitos dos gays, em reconhecimento pelo empenho dos ativistas LGBTs na greve dos mineiros.

“o movimento dos trabalhadores deveria significar isto: você me apoia; eu te apoio, quem quer que você seja ou de onde venha; ombro no ombro, mão na mão.

O principal mérito de Pride é conciliar luta operária e LGBT+, mostrando a todos que a emancipação de minorias deve vir por meio da união de todos os oprimidos. Sem dúvidas, a parte mais emocionante do filme é o final, quando os mineiros, em um gesto de retribuição, encabeçam a marcha do orgulho gay de 1985, em Londres.  Além disso, a história retratada pelo filme prova duas hipóteses. A primeira é a de que a luta do movimento LGBT+ é mais forte quando associada à consciência de classe. A outra é a de que o esquecimento desse importante episódio da História é projeto do neoliberalismo, que desassocia a luta de classe das demais lutas políticas.

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Pride (Orgulho e Esperança), Reino Unido, 2014.

Gênero: drama, comédia

Direção: Matthew Warchus

Roteiro: Stephen Beresford

Elenco: Bill Nighy, Imelda Staunton, Dominic West, Paddy Considine, Andrew Scott, George MacKay, Joseph Gilgun, Ben Schnetzer, Monica Dolan, Faye Marsay, Freddie Fox, Chris Overton, Joshua Hill

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