Morreu o “poster boy” do presidente

Guru do governo Bolsonaro, Olavo de Carvalho morreu hoje, aos 74 anos, nos Estados Unidos

Olavo de Carvalho sempre foi uma das estranhas referências da direita “histérica” e também de alguns “conservadores” discretos (mas profundamente afeitos às besteiras do “guru”). Ouvi falar dele pela primeira vez em idos de 2014, quando o velho fomentava polêmicas ao dizer, por exemplo, que a Pepsi utilizava restos de fetos abortados como adoçante. Não era novidade ou exceção. Olavo dizia que cigarro não faz mal à saúde, que não existem combustíveis fósseis, que o nazismo seria de esquerda e que o Sol gira em torno da Terra. 

Algumas de suas maluquices eram claramente importadas de lunáticos estadunidenses. Outras, porém, podem ser consideradas fabulações originais. Em meio a muita conversa fiada e palavrões, Olavo valia-se de sua retórica para cativar pessoas que já concordavam com ele e iniciantes nas discussões que propunha.

Hoje, 25 de janeiro, o Brasil amanheceu com a agradável notícia da morte do astrólogo. Até o Diário Oficial da União trouxe um decreto de Bolsonaro, estabelecendo luto oficial. Foram várias as comemorações. Um dia de festas. “Dia de delírio público”, para usar um termo de Machado de Assis. E não era para menos: sem qualquer contribuição útil ao pensamento político, filosófico ou sociológico brasileiros (exceto pelas importunações que, vez ou outra, rendiam boas gargalhadas), Olavo é corresponsável por centenas de milhares de mortes por Covid-19. Sempre espalhou desinformação e ódio. Raramente (para não dizer nunca) tratou seus adversários como adversários: sempre os tratou como inimigos a serem eliminados.

Não há, portanto, motivo para lamentar a morte do padrinho “intelectual” do bolsonarismo. Tampouco é de se pensar que o astrólogo encontrará redenção noutra vida. Viveu fazendo maldades e charlatanices: sua eternidade será a memória, que registra ter sido ele um manipulador vil, um mestre na arte de explorar a ingenuidade política dos brasileiros.

De nossa parte, vale lembrar que Olavo, diferentemente de alguns componentes do bolsonarismo, não emergiu em 2018. Isso porque ele sempre teve espaço na imprensa burguesa, que hoje se esforça para se desvencilhar da vergonha de ter apoiado Bolsonaro a qualquer custo – inclusive a custo da verdade. Olavão foi colunista da Folha de São Paulo (que continua a abrigar figuras ideologicamente abjetas), do Diário do Comércio, do Jornal do Brasil, do Jornal da Tarde e da revista Época; foi elogiado por figuras como o economista liberal Roberto Campos e o medíocre (porém famoso) “jornalista” Reinaldo Azevedo; teve financiamento da burguesia, especificamente pela Odebrecht; obteve um grande esforço editorial e de marketing, inclusive de editoras como a Record, a Topbooks e a É Realizações. Sempre teve caminhos abertos e, em função disso, pode se catapultar como o mentor do bolsonarismo. 

Seus laços pessoais e políticos foram tumultuados. Quanto aos pessoais, basta notar que a própria filha, Heloísa de Carvalho, publicou um livro que tenta dizer ao mundo quem é, de fato, Olavo:

No cerne daquilo que meu pai propaga está a defesa de uma rígida e talvez imutável estrutura hierárquica, com líderes, seguidores e, na sua base, subumanos que merecem desprezo e destruição. A filosofia de meu pai, se é que podemos chamar assimsuas verdadeiras ruminações pseudointelecutais sobre filosofia, é uma variação da filosofia do extermínio. CARVALHO, Heloísa de. “Quais são os valores do guru”. In: Meu pai, o guru do presidente. Curitiba: Kotter Editorial; Editora 247, 2020. p. 69. 

Sobre os laços políticos, cumpre observar que Eduardo Bolsonaro chamou Olavo de “referência filosófica”. Depois que a popularidade de Jair entrou em baixa, Olavo disse ter sido usado como “poster boy” do presidente, que teria apenas usado dele para se autopromover. A mentira é óbvia: a simbiose entre os dois foi evidente: promoveram reciprocamente o crescimento um do outro.

Apesar do histórico fétido, há quem diga que devemos ter empatia para com Olavo de Carvalho. Afinal, segundo dizem alguns, muy cristãos, ele era um homem bom.

Que tenha, então, como diria Brecht, um enterro com uma boa pá e com uma boa e pesada terra.

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