Patos de Rimas

Breve história da música rap na cidade de Patos de Minas

Por Vitor Hugo Rosa

O rap é um dos gêneros musicais mais conhecidos nos dias atuais e é um dos pilares do movimento hip hop. A importância desse movimento cultural como alternativa de vida para pessoas marginalizadas ou apenas como única forma de manifestação cultural é imensa. Apesar de ter surgido em terras estadunidenses, o hip hop é um movimento cultural de caráter transversal, por isso sua fácil adaptação às terras brasileiras. O hip hop nasceu no final dos anos sessenta e início da década de setenta nos bairros negros e latinos de Nova Iorque, mais especificamente no Bronx e no Brooklin. Essas regiões, verdadeiros guetos, enfrentavam diversos problemas de ordem social como pobreza, violência, racismo, tráfico de drogas, carência de infraestrutura e de educação. No Brasil, o hip hop surgiu no final da década de 1980. Desde os anos 1970, no Rio de Janeiro, já era grande o número de pessoas que frequentavam os bailes black, onde tocava soul e funk. Esses bailes promoveram o resgate da identidade negra brasileira e difundiram as ideias do Black Power no Brasil. A música black se difundiu por todo o país, principalmente por São Paulo, Bahia e Brasília. O rap surgiu nesse contexto, como uma continuidade do soul e do funk.

Em Patos de Minas, principalmente nos últimos anos, o movimento hip hop vem ganhando força. O grafite talvez seja a maior expressão do hip hop na cidade mineira, mas o rap também se faz presente, através de grupos de rap e MCs com anos de experiência e também com novos representantes surgindo recentemente. Batalhas de rimas começaram a ser organizadas, assim como eventos culturais focados no hip hop.

O rap na cidade começou em meados de 1992. Os dois primeiros MC’s foram CD (Cássio Denner) e DNI (Dinei). Os primeiros grupos de rap da cidade foram o Voz de Poder, ramificação do grupo de dança de rua homônimo, que se iniciou em 1997, além do Consciência de Rua, também nos anos 1990. Os primeiros eventos relacionados ao hip hop na cidade foram bailes com shows de rap e de breakdance, com o grupo de dança Companhia de Dança de Rua Força Ativa, criado por Nadir Maria Gontijo. Segundo a MC patense e ex participante do grupo de dança, Ana Carolina Costa, uma das primeiras coreografias do grupo teve como tema a Chacina da Candelária, ocorrida em 1993, no Rio de Janeiro. “O auge foi na época da chacina da Candelária. Fizeram uma coreografia chamada Candelária, muito linda e ao mesmo tempo triste.” (Entrevista escrita concedida a Vitor Hugo de Araujo Rosa em 2017).

Dentre outros eventos relacionados ao movimento hip hop em Patos de Minas, podemos citar o Hip Hop Pela Paz (1999), a Mancha na Praça (2002), o Invasão da Arte (2004), o Festival de Rap na Praça (2003), a Chama Cultural, ou Chama Hip Hop, que teve início em 2004 e contou com quatro edições, além do Alterna Expo, de 2004 a 2006, e do Hip Hop Àgosto, de 2007 a 2010.

Atualmente há eventos maiores e com melhor estrutura, como o Trem das Ruas, o festival de rap que acontece na Fenapraça1 e o Hip Hop Contra Fome2 . Dentre os rappers e grupos de rap mais influentes na cidade, podemos citar o Voz de Poder, o Consciência de Rua, o Voz da Quebrada, o Street Mafia Rappers, o Alien’G, a dupla Carol e Beth P. e os MCs RLoco e Canibal.
O projeto Trem das Ruas, liderado pelo rapper Cássio Denner e pelo grafiteiro Bertiher, com apoio da Prefeitura de Patos de Minas, contou, nas duas primeiras edições do evento, com apresentações de grupos de rap, batalhas de rimas, apresentações de breakdance, shows de DJ’s, exposição de grafites, varal de poesias e um espaço para leitura e troca de livros.

É uma característica do hip hop, em sua fase inicial, ter seus elementos3 bem unidos, ficando difícil separar uns dos outros. Ao longo de seu desenvolvimento, é uma tendência que esses elementos se ramifiquem, tendo, assim, uma separação de seus espaços, de seus membros e de seu público-alvo. Pelo fato de o movimento, na cidade de Patos de Minas, ainda estar em uma fase inicial, esses elementos ainda são muito unidos, sendo difícil separar e analisar apenas um separadamente. É inevitável não falarmos do movimento hip hop patense como um todo ao analisar o rap da cidade.

O movimento hip hop na cidade de Patos de Minas já tem uma longa trajetória, porém aparenta ainda estar engatinhando. Apesar de ter uma base de participantes já estabelecida e contar com a chegada de novos membros, o movimento ainda depende muito da ajuda de parceiros e da força de vontade dos participantes para a realização de eventos. O número de participantes envolvidos pode ser pequeno, porém eles formam um grupo muito unido e perseverante. Por isso, podemos esperar, no futuro, um possível crescimento e amadurecimento do movimento em Patos de Minas.

“O rap fez ser o que eu sou.”

Mano Brown (2002)

O rap chegou a Patos de Minas ainda no início da década de 1990. Até hoje mantém um caráter inicial, dependendo de apoio para crescer. O rap patense não se desenvolveu com a mesma velocidade que o rap nacional, porém conta com uma base de membros bem estruturada e disposta a realizar os diversos eventos relacionados à cultura que acontecem na cidade, com a integração de todos os elementos e até com a participação em eventos de outras culturas. A falta de maior ajuda por parte do poder público, de visibilidade, de espaços nas escolas, nos teatros e nas feiras de cultura prejudica o desenvolvimento do movimento, assim como o preconceito do restante da comunidade também é um entrave.

Porém, devido a todo o trabalho desenvolvido por seus membros e a seus esforços para a realização dos eventos culturais relacionados à cultura hip hop em geral, e, em particular, ao Rap, as expectativas para o futuro são de crescimento e maior estruturação do movimento.

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[1] Evento cultural que ocorre todos os anos na Praça da Avenida Getúlio Vargas da cidade de Patos de Minas, com atrações culturais diversas.

[2]Evento cultural de hip hop que tem como objetivo a arrecadação de alimentos. Conta com apresentações de rap, breakdance, DJs, exposições de grafite, batalhas de rimas e campeonato de skate, entre outros.

[3]O DJ (disc-jockey), o MC ou rapper (cantor de rap), o Break (dança) e o Graffiti (expressão plástica).

 

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