Paris não é aqui; Paris é logo ali

Há um abismo entre duas sociedades em Patos de Minas. Diferentes realidades são reveladas com maior intensidade no contexto pandêmico.

Teófilo Arvelos

“E na TV, se você vir um […] plano de educação que pareça fácil, que pareça fácil e rápido, e vá representar uma ameaça de democratização do ensino do primeiro grau, […] pense no Haiti, reze pelo Haiti” (Caetano Veloso e Gilberto Gil).

Sei muito bem que não sou um cientista, um médico ou um professor, mas o que quero falar não parte de instrução, mas de experiência. Passei meus últimos doze anos, bem mais do que metade da minha vida, em escolas públicas no município de Patos de Minas. Foram nove em uma escola da rede municipal de ensino, no distrito de Alagoas, e três no IFTM

Alguns chamam aqui de Paris de Minas. Definitivamente, Paris não é aqui. Mas está perto daqui: a apenas alguns minutos de caminhada de onde eu moro. De vez em quando, faço caminhada em seu “boulevard”. Certa vez, a elite de Paris de Minas batizou seu “boulevard” de “Avenida Liberd’arte”. Bonito nome. Os parisienses-mineiros são sempre muito criativos e engajados nas causas sociais, como a democratização da cultura e do ensino. Hoje, estão empenhados na democratização do ensino.

Assisti a um vídeo de uma jovem mãe parisiense-mineira exaltando os benefícios que serão trazidos com o começo das aulas presenciais no início desta nova Era de Aquárius. Serão esplêndidos: interação das crianças (a palavra “socialização” é evitada em Paris de Minas, pois remete a doutrinas do PT que vêm sendo implantadas nas escolas) e transmissão de saberes (sem aqueles métodos de Paulo Freire, é claro). E tudo isso está amparado por uma série de estudos de países ricos que comprovam que as escolas não são “hotspots” de transmissão do novo coronavírus.

Paris de Minas não é aqui, onde eu moro. E não moro em um país rico. Aqui é o Haiti. As escolas daqui não são como as francesas, as canadenses, as norueguesas, as sul-coreanas, as japonesas, as estadunidenses. As escolas daqui são brasileiras. Aqui, os pátios de alimentação são pequenos, e doze crianças comem em uma mesma mesa. Aqui, as salas de aula são apertadas, e não há um professor para cada dez alunos. Nem quinze, nem vinte. Aqui, os alunos têm de pegar um ou dois ônibus para chegar à escola. E os ônibus vão lotados. São públicos. Trabalhadores que levantam cedo e cidadãos que se recusam a usar máscara (ou que a usam com o nariz de fora) também precisam se deslocar.

Quando se deslocam, cruzam a Paris de Minas. Normalmente, eles moram em um canto de Patos de Minas e precisam ir até outro canto de Patos de Minas. Mas como todas as rotas levam a Paris, eles passam por Paris todos os dias. É em Paris que estão as escolas dos filhos dos parisienses-mineiros, que também são parisienses-mineiros. Lá, é tudo diferente. A infraestrutura é outra.

O que eu quero saber é: os estudos dos pesquisadores franceses, canadenses, noruegueses, sul-coreanos, japoneses e estadunidenses sobre a segurança das escolas foram feitos em escolas francesas, canadenses, norueguesas, sul-coreanas, japonesas e estadunidenses, ou foram feitos em escolas brasileiras? Pergunto isso porque moro em Patos de Minas, que fica no Brasil. Ou no Haiti.

Aqui no Brasil, metade dos alunos não compareceram ao Enem, e ainda assim as salas ficaram cheias. Aqui no Brasil, milhares de pessoas seguem um presidente que fala para não usar máscara, e essas mesmas pessoas têm filhos, e esses mesmos filhos aprendem seus valores com esses mesmos pais. Aqui no Brasil, milhares de pessoas vão a chácaras e bares fazer farra; são filhos e pais. Aqui é o país das contradições. O Haiti é e não é aqui.

Não frequento a alta sociedade de Paris de Minas. Em Paris de Minas, sou aquele homem de Lúcio Barbosa que olha um edifício, e vem um cidadão desconfiado perguntando se admiro ou se faço planos de roubar. Paris de Minas não tem fronteiras definidas. Paris de Minas é onde os parisienses-mineiros estão. Paris não é aqui; Paris é logo ali.

O retorno das aulas presenciais será diferente em Paris e em Patos. Até começarão em momentos diferentes. Mas essas duas cidades sociais têm uma só prefeitura, e essa não é a única semelhança entre elas. “Miséria é miséria em qualquer canto”, já cantavam os Titãs em 1989. Jovens são jovens em qualquer lugar. Vão querer ir ao shopping e ao Mocambo depois da aula, vão querer tomar açaí não sei onde. Mesmo em Paris de Minas, em que as escolas são francesas, haverá jovens sendo jovens. O maior perigo do retorno das aulas presenciais é esse “combo”. É o bônus virando ônus. E isso é o que me preocupa.

“Reze pelo Haiti”.

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Um comentário

  1. Perfeito! Incisivo e simples. Essa romantização de Patos é um porre. Até parece que não damos aulas com 52, 45 alunos dentro da sala.

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