Paisagem de uma tragédia

No fim das contas, parece ser o que todos já conhecíamos há tempos: a morte sacrificial de multidões no altar do Deus dinheiro.

Por Munís Pedro Alves

Ao me mudar para Patos de Minas, por questão de trabalho, no meio da pandemia, tive a possibilidade de observar etnograficamente a cidade por uma perspectiva, sem dúvidas, distinta da do cidadão patense. Isto é, o meu “defeito” em não conhecer profundamente o local oportunizou, por outro lado, conhecer sua superfície em um momento de exceção. É deste ponto de vista que escrevo este texto.

Logo após ter chegado, tendo atravessado do norte ao sudeste do país, lembro de ter visto com espanto a intensa movimentação das pessoas nas calçadas do centro. Sacolas para lá e para cá. Vendedores ambulantes. Filas de casas lotéricas cruzando quarteirões. Lojas, todas abertas. De todos os tipos. Isso com certeza tornou menos difícil a minha mudança e instalação, ao contrário do que imaginava. À noite, tudo era fechado. Silêncio e penumbra. “É a hora que o vírus circula”, pensei. “Durante o dia ele não vem”. Como são espertos meus futuros concidadãos! 

O estratagema que, certamente, não foi inventado por um gênio do Alto Paranaíba, e que provavelmente estava sendo utilizado em outros cantos do Cloroquinistão, ao menos parecia estar dando resultado. Afinal, havia mais de três meses de chegada da pandemia e somente uma centena de casos oficialmente confirmados. Umas poucas vidas tinham sido levadas. Acontece que, nesse jogo de números superlativos, uma vida é muito para quem a perdeu e para os familiares que tiveram que lidar com a partida dos seus. Um mês depois disso, os casos sextuplicaram. As mortes triplicaram. O resto, vocês leitores já sabem.

Por uma peça pregada pelo destino, talvez por ter trazido o mau presságio à outrora abençoada cidade, como uma punição de tragédia grega, aluguei uma moradia cuja vista se esparrama para o pátio de uma funerária. Desconhecia a localidade, é claro. Coisas que só ocorrem com forasteiros. Impossibilitado de sair de casa ou, melhor, não saindo por temer arriscar minha vida e as de outros, meu contato frequente com o mundo externo era o olhar lançado através das janelas. E, quando não desejava avistar telhados de casas, o objeto de observação era a funerária e seus velórios, cuja atividade, como uma espécie de contraturno da vida, tem se tornado contínua e perpétua na pandemia.

Em 2019, um ano antes da pandemia, foram registradas 1.739 mortes (por ocorrência) de qualquer natureza em Patos de Minas. Ainda não há dados gerais no site do Ministério da Saúde para o ano de 2020. Contudo, foram 100 óbitos somente em decorrência de covid-19. O que representaria 5,7% das mortes se repetíssemos o número total de óbitos do ano anterior. E o número aumentou bastante no ano seguinte. Até o momento, ocorreram 383 mortes por covid, em 2021, em Patos de Minas. E estamos ainda no meio do ano. Se dividíssemos o número total de 2019 para fazer uma média, representaria 44%. Ou seja, seria quase metade das mortes! 

” (…) Tudo isso já bastaria para ser um evento traumatizante no país cuja história tem traumas que afetam sua sociedade até os dias atuais: o genocídio indígena, a escravidão, a ditadura militar etc.”

Acontece que mortes de outros tipos continuam acontecendo: outras doenças, acidentes, homicídios, suicídios, causas naturais etc. Pior: devido à superlotação, faltam leitos para pessoas que procuram o hospital com outras enfermidades. Resultado: velórios mais e mais lotados a cada dia que passa. Basta olhar pelas janelas para constatar essa realidade. Raras são as semanas em que não há velório em algum de seus dias.

Tudo isso já bastaria para ser um evento traumatizante no país cuja história tem traumas que afetam sua sociedade até os dias atuais: o genocídio indígena, a escravidão, a ditadura militar etc. Porém, o fato ganha um contorno ainda mais perverso e macabro. Isso ocorre à medida em que vai se descobrindo (ultimamente através da CPI) que o governo federal teria optado pela estratégia institucional de propagar o coronavírus no país (como em Manaus, por exemplo). Soma-se a isso a rejeição da compra de vacinas com antecedência para não só gastar dinheiro público com remédios sem qualquer eficácia científica contra Covid-19, mas (possivelmente) com o objetivo de encontrar a melhor oportunidade para esquemas de corrupção e superfaturamento. No fim das contas, parece ser o que todos já conhecíamos há tempos: a morte sacrificial de multidões no altar do Deus dinheiro.

O círculo vai se completando. A ausência de coordenação para enfrentar a potência do morticínio começa a fazer sentido. Afinal, trata-se de um país que, no início da pandemia, sem aparentar dor na consciência, ousou discutir publicamente o que era mais importante: a economia ou a vida de seres humanos com idade avançada e/ou demais fragilidades biológicas. Os discursos e as ações de muitos megaempresários, economistas e representantes políticos, que aceitaram expor milhares à morte pela salvação das “contas públicas”, se interconectam com os pensamentos e sentimentos daqueles que priorizaram o lucro em detrimento da existência do outro. Sendo assim, a vida do outro somente poderia ser privilegiada caso o projeto de sua manutenção produzisse diretamente lucros (legal ou ilegalmente).

A ausência de coordenação para enfrentar a potência do morticínio começa a fazer sentido. Afinal, trata-se de um país que, no início da pandemia, ousou discutir publicamente o que era mais importante: a economia ou a vida de seres humanos.”

Nas idas ao supermercado e à farmácia, pude observar a descoordenação nacional incidir sobre a esfera municipal. Sem plano de auxílio algum a comerciantes, a pressão sobre a Prefeitura para autorizar a reabertura de tudo deve ter vindo forte, imagino. Fortes também vieram a inveja, o ressentimento e a competição. Gêneros não alimentícios eram interditados por faixas nos supermercados, como na cena de um crime cinematográfico. “Se não posso vender, o outro também não pode!”. Ao diminuírem o número de casos, abria-se os estabelecimentos. Todos. Ao subirem o número de casos, fechava-se tudo. Ainda estamos nessa. Uma gangorra de vida e morte.

A pandemia também acentuou a disputa pelo significado das palavras no país. Em Patos de Minas não foi diferente. Serviço essencial: o que é o essencial? Seria o que é essencial para a vida? Há uma frase segundo a qual não precisamos de muito para viver. Mas, dependendo dos valores da sociedade em que vivemos, descobrimos que mesmo o supérfluo se torna essencial. O lucro, neste caso. Até o significado do nobre sentimento de luto foi deslocado para significar exatamente o que deveria ser mais importante para um determinado tipo de pensamento. Isto é, não é mais a vida o objeto digno do processo psíquico de luto, porém a atividade econômica. Placas anunciam: “Luto pelo comércio”.

Ao longo deste período vivendo aqui, o que mais me chamou a atenção na paisagem não foram os gritos de indignação, de ira e revolta dos familiares, nem foram os choros copiosos e soluçantes, nem as orações, cânticos e, por fim, aplausos destinados a quem se foi (costume que tem se tornado bastante recorrente). O que realmente mostrou as sombras desta época foi uma confraternização entre donos, chefes e funcionários uniformizados da funerária. Uma celebração na área de velório, durante a pandemia. Uma comemoração silenciosa, mas com pompa e balões brancos… para comemorar os lucros auferidos no ano que se passou?

De certa forma, a funerária ao lado entrega uma imagem do que vivemos. Em meio a esse cenário trágico e triste, há quem comemora e lucra com a desgraça alheia. A tragédia é essa.


Munís Pedro Alves é coordenador do Diacrônico, canal do Youtube voltado para produção de conteúdo educacional, discussão de problemas da atualidade e assuntos diversos no campo das Ciências Humanas.

Deixar uma resposta