O que a burguesia não falou ainda sobre a indústria 5.0

Considerações críticas sobre o avanço técnico e o "camelódromo da era digital".

Por Vinícius F. Maciel

A quarta revolução industrial teve seu início na década passada, na Alemanha [1], em 2011, para ser mais preciso. Na época, a chanceler Angela Merkel conceituou a nova geração tecnológica como: “a transformação completa de toda a esfera da produção industrial através da fusão da tecnologia digital e da internet com a indústria convencional”.

Como é de se esperar a partir daí, aos trancos e barrancos, a tecnologia empregada nos meios de produção evolui conforme a lógica neoliberal. Favorece o grande capitalista, escraviza os pequenos que se enxergam como os “detentores dos meios de produção” e põe em risco a existência da classe trabalhadora explorada. Para alguns, estas colocações parecem triviais, mas, se você ainda não se lembrou dos serviços de transporte e delivery que são oferecidos por meio de aplicativos de smartphone, vale a relação conceitual. Para o site oficial da Indústria 4.0 no Brasil, estes serviços “disruptivos” pertencem aos “artesãos da era digital” [2].

A maravilhosa era dos empreendedores “artesãos” fez com que, literalmente, o trabalhador desse o seu sangue por um emprego de migalhas, sem ao menos saber quem é o seu patrão, ou sequer contactá-lo para revisar suas condições trabalhistas. Sendo monitorado 24 horas por dia, pelo seu dispositivo munido de GPS e internet, e pressionado a entregar sua força de trabalho, o trabalhador cumpre horas a fio de serviço, aguentando o mantra meritocrático do “seja livre para trabalhar a hora que quiser, você faz o seu próprio horário”.

Naturalmente, sentimos medo daquilo que ainda não conhecemos. A inteligência computacional moderna já implementa o 1984 de George Orwell como seletor natural, que escolhe o trabalhador que se humilha mais e descarta o trabalhador que sucumbe à violência tecnológica. O que deve se temer, de forma irônica, no entanto, não é o Estado que monitora fervorosamente sua vida, mas sim uma classe detentora do poder por via de uma democracia fajuta.

No início de outubro deste ano, no meio de uma pandemia avassaladora que deixou trabalhadores mais vulneráveis e bilionários mais ricos [3], a inteligência artificial mostra as suas garras na lógica embalada pela formatação capitalista. Trabalhadores de uma empresa de software na Rússia passaram por um RH automatizado, que avaliou, com base na produtividade classificada por um algoritmo de inteligência artificial, quem deveria ou não ser demitido. Segundo a matéria do El País [4], 150 trabalhadores foram demitidos em questão de segundos, de forma covarde e sem a “intromissão enviesada humana” no processo.

Junto a alguns destes “maravilhosos” apanhados de “cases de sucesso” da indústria 4.0, surge o que eu vou descrever neste texto como o “camelódromo da era digital”. Sim, aquela classe de trabalhadores informais que vão se arriscando com a promessa tóxica de um mercado que não foi feito por ela e nem para ela, mas que precisa dela para continuar funcionando. Estou falando dos indivíduos que, na decadência das oportunidades de emprego formal e na romantização da informalidade, se entregam ao boom da mineração de dados, do mercado financeiro especulativo e dos demais trambiques computacionais. Os novos apertadores de parafuso, que se apropriam de um ou outro algoritmo pré-definido para alcançar o bendito sucesso profissional. São eles também vítimas de uma precarização intelectual, de um mercado que costumeiramente terceiriza o trabalho da ciência de dados a “empreendedores” altamente motivados. 

É pelas plataformas de cursos à distância que, após a revolução 4.0, passam a existir e ter na composição de seus repertórios os mais diversos cursos de ciências de dados e programação. Sem ao menos nos questionar (me incluo nessa categoria profissional), nos especializamos para promover o engrandecimento de uma superestrutura de vigilância mercadológica. Com intuito de fazer das interações humanas nas redes sociais um apanhado de dados para análise, essa superestrutura faz de cada indivíduo vigiado matéria prima a custo zero.

Cena da peça “Rossum’s Universal Robots”, a partir do artigo “AI slaves: the questionable desire shaping our idea of technological progress”

As perspectivas para a Indústria 5.0 não são animadoras. O emprego de uma tecnologia que desconhecemos, ou com um formato muito diferente do que conhecemos, ditará como o mercado vai se comportar. O próximo passo seria, seguindo a lógica evolutiva das revoluções industriais, a inutilização ainda mais agravada das classes de trabalhadores vulneráveis por meio da substituição mecanizada. Uma tal revolução será marcada pela higienização elitista da sociedade, se os humanos não aprenderem a utilizar suas tecnologias para o bem do coletivo. 

Stephen Hawking disse [5] uma vez que “o crescimento da inteligência artificial pode ser a pior ou a melhor coisa que já aconteceu para a humanidade”, a depender de como o ser humano irá problematizar a sua relação com ela. 

Aqui vão algumas perguntas como forma de uma primeira vista à problematização da Indústria 5.0: a monopolização completa da tecnologia não estaria colocando em risco a existência de toda uma classe trabalhadora? Como uma classe sem outro meio de sobrevivência que não sua própria força de trabalho irá comer, vestir, morar etc..? Onde serão descartadas as vidas, quando uma sociedade estiver automatizada pela inteligência computacional?

Nem mesmo o modelo capitalista de sociedade está preparado para a Indústria 5.0, apesar do anseio ganancioso da burguesia. O colapso será inevitável, vidas irão se tornar obsoletas e a sociedade, tendo desperdiçado todo o potencial humano, resumir-se-á à classe dos burgueses detentores das fontes de criação tecnológica. 

Se tal apocalipse high tech irá acontecer ou não, dependerá da capacidade da classe trabalhadora em se organizar e resistir desde agora. O futuro sombrio para o qual a Indústria 5.0 quer nos arrastar não é uma fatalidade histórica. Nesse sentido, o que fizermos no presente será de vital importância. Portanto, não há outro remédio: ir à luta!

Notas

[1] EUROPEAN PARLIAMENT. Industry 4.0 Digitalisation for productivity and growth. Setembro de 2015. Disponível em: <http://www.europarl.europa.eu/RegData/etudes/BRIE/2015/568337/EPRS_BRI(2015)568337_EN.pdf>. Acesso em: 29 out. 2021

[2] INDUSTRIA40. A indústria 4.0 e os artesãos da era digital. Novembro de 2019. Disponível em: <https://www.industria40.ind.br/noticias/19011-a-industria-40-e-os-artesaos-da-era-digital>. Acesso em: 29 out. 2021

[3] GRAZZIOTIN, Vanessa. Os ricos ficam mais ricos e os pobres cada vez mais pobres na pandemia. Disponível em: <https://www.brasildefato.com.br/2021/05/06/os-ricos-ficam-mais-ricos-e-os-pobres-cada-vez-mais-pobres-na-pandemia> . Acesso em: 29 out. 2021.

[4] ECHARRI, Miquel. 150 demissões em um segundo: os algoritmos que decidem quem deve ser mandado embora. Outubro de 2021. Disponível em: <https://brasil.elpais.com/tecnologia/2021-10-10/150-demissoes-em-um-segundo-assim-funcionam-os-algoritmos-que-decidem-quem-deve-ser-mandado-embora.html>. Acesso em: 29 out. 2021.

[5] CELLAN-JONES, Rory. Stephen Hawking: Inteligência artificial pode destruir a humanidade. Dezembro de 2014. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2014/12/141202_hawking_inteligencia_pai>. Acesso em: 29 out. 2021

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