O (não) combate à pandemia em Patos de Minas – Parte 2

Vacinas a conta-gotas e caos no Hospital de Campanha

Continuo neste texto uma linha de interpretação iniciada com a Parte 1 da presente série. Cumpre ressaltar que, além dos problemas sobre os quais dissertamos antes, há outros aspectos da situação pandêmica que mostram a mediocridade da “eficiência” prometida em campanha eleitoral pelo atual Prefeito (vide páginas 9 e 13 da Proposta de Governo) e indicam, infelizmente, que a cidade está à beira do caos e em notória balbúrdia em termos de saúde pública.

Um desses aspectos é o processo de cadastramento para vacinação. Já houve reclamações e dificuldades na efetivação dos registros. De fato, a estratégia adotada pela Prefeitura, ao requerer acesso à internet, alguns conhecimentos (ainda que básicos) de informática e muita paciência, provou-se um método que só é adequado à mesquinha política de compra e distribuição de vacinas por parte dos governos federal e estadual. Este, ocupado por Romeu Zema, muito admirado pelo nosso prefeito, falhou, por pura incompetência e desleixo, em adquirir a vacina da Sinopharm; aquele, ocupado por Bolsonaro, em quem Falcão se escorou para atrair certo eleitorado, parece mais sabotar do que estimular a vacinação.

É, no mínimo, tristemente irônico que Falcão, cujo marketing era o de um gestor “moderno e renovador”, só tenha conseguido implementar um processo de cadastramento burocrático, inadequado para seu público-alvo e tecnicamente insuficiente (ou, no mínimo, pouco pensado). Se o arsenal de vacinação tivesse chegado em quantidade adequada (e não a conta-gotas, como está acontecendo), todo o processo correria o risco de ser um fracasso completo, haja vista as dificuldades de formação de fila. Em ritmo de tartaruga, o governo da “ave” neoliberal é passivo quanto à demora da chegada das doses de vacinas, esperando a benevolência de outras instâncias de poder.

Tornou-se evidente que os arautos da eficiência não conseguiram conceber nada mais ágil para vacinar pessoas com mais de 75 anos do que um cadastro virtual cheio de complicações… Cerejas do bolo: a própria Secretária de Saúde, Ana Carolina Magalhães Caixeta, admitiu que o site estava com os servidores sobrecarregados. Porém, a mesma Secretária afirmou que a plataforma estaria recebendo apenas 150 registros por hora. Segundo ela, a quantidade de tentativas de cadastros seria responsável pelos erros no site. Tratava-se do famoso erro 404, que ocorre quando o usuário (cliente) consegue contatar o servidor, mas este não responde por não encontrar o que foi pedido ou não estar configurado para tal.

Vale notar que o cadastramento virtual já complica a situação dos info-excluídos e que um servidor que se sobrecarregue com tão poucas solicitações não é adequado para uma cidade com população de cerca de 153 mil pessoas. Felizmente, depois de constatar a iniquidade do processo que ajudou a criar, a Secretária Ana Carolina declarou que os postos de saúde, em último caso, poderiam fazer o cadastro das pessoas. As complicações com o endereço na Web também parecem ter sido amenizadas.

O(A) leitor(a) que deseje mais informações sobre o cadastramento para vacinação pode consultar os esclarecimentos da Secretaria de Saúde a respeito do tema. Caso deseje se informar sobre a Coronavac e sobre a Vacina de Oxford, vale notar que a Tallita Stéfanne publicou um texto a respeito delas no Jornal de Patos.

Se a situação quanto à vacinação não é animadora, a sua morosidade é ofuscada por outro aspecto, fortemente evidenciado pela mídia local: a inaptidão do governo municipal para articular o atendimento no Hospital de Campanha. As condições de organização espacial estão (02/02/2021) tão problemáticas que a conclusão a que se chega ao ver o Hospital pela TV é a de que aquele é um lugar perigoso para quem não tem certeza se está infectado.

É importante não esquecer que a organização do Hospital de Campanha foi alterada com a promessa de otimizar o fluxo dos pacientes e melhorar a qualidade do atendimento. Curiosamente, quando isso foi anunciado, o governo também informou a redução da quantidade de leitos, sob o pretexto de “otimização dos recursos” (como se a situação, naquele 11 de janeiro, fosse muito promissora).

Na prática, o governo de Falcão executa uma espécie de “austeridade fiscal” (ou “austericídio fiscal”) para com a questão, de sorte que chegou até a não renovar contratos de 20 profissionais que trabalhavam no enfrentamento à Covid-19. Tal política já começa a render resultados: a equipe do Hospital de Campanha está sendo exaurida de maneira irresponsável e cruel, impelida a um ritmo de trabalho mais extenuante e a jornadas de trabalho maiores.

Essas (in)ações e circunstâncias ensejam uma reflexão necessária para nos situarmos em meio ao caos. Essa reflexão deve decifrar o papel que o neoliberalismo vem exercendo no (não) combate à pandemia e entender como ele lida com questões prementes da conjuntura, entre as quais encontra-se a polêmica em torno do tipo de regime letivo a ser adotado na Educação. Isso será problematizado no próximo texto.

2 comentários

  1. Não poderia deixar de comentar esse texto. Sou um assíduo do site, tanto para criticar para com outras pessoas (por acreditar que a esquerda não se forma com belas palavras e coisas rebuscadas, mas sim união e muito por conhecer quem é quem do site) quanto para ver o que pensam sobre as coisas… e hoje pensaram, mais uma vez, dentro da caixinha demais.

    1- Concordo muito com o autor (cancelador?) sobre a questão social do usuário para com a questão de uso da internet e erro de servidores. Isso foi uma lástima. Mas para toda reclamação, gere uma ação.

    2- Dê nome aos bois. Sempre. Citem a secretária vaidosa pelo seu nome e atuem como um jornal. O que levou de fato a troca da mecânica do hospital de campanha?

    A resposta? Vaidade! A cuja secretária era diretora da clínica de especialidades da cidade. Tal clínica havia sido retirada do atual prédio do hospital de campanha para dar espaço aos necessitados da Covid-19. Com isso a clínica foi para a UPA antiga da cidade. Ok. A gestão passada fez então um bloco de possíveis casos da Covid-19 na atual UPA. Caso fosse constado a doença, iria para um atendimento mais especializado no hospital de campanha. A gestão atual resolveu acabar com essa ala na UPA … e o PIOR, a clínica de especialidades voltou para sua sede que hoje é o hospital de campanha e nesse mesmo prédio temos: suspeitos da Covid-19; Covid-19 e pasmem, tratamento de câncer por conta da clínica de especialidades. Liguem os pontos e entendam a definição de secretária vaidosa.

    Mas fica ao autor do texto um elogio: foi o que menos rebuscou em suas palavras. Foi direto. Não rodeou. E esse é o ponto para atender uma maioria e “levar para a luz”.

    • Olá!
      Agradeço pelo acompanhamento das publicações e por compartilhar conosco suas críticas e opiniões! Contamos com esses apontamentos!
      Sobre o artigo trazer ou não um pensamento “fora da caixa”, depende muito do que se considerar como “caixa” – e, em geral, isso depende das informações que se possui.
      Quanto ao item 1, de fato, foi uma lástima. E que ação seria possível articular, na sua visão?
      Sobre o item 2, acrescentei o nome da Ana Carolina, que realmente ficou faltando. Obrigado!
      Sobre vaidade, creio que não seja o objetivo analisar o fato político como expressão de vícios ou virtudes pessoais de ocupantes de cargos senão na medida em que essas coisas interferem na coisa pública. Certamente, teria muito o que ser dito, caso fôssemos por esse caminho que você apontou e conhecêssemos a pessoa da Ana Carolina. Mas como a vaidade teria influenciado na configuração “hospital de campanha + clínica de especialidades”? Por certo, a ideia de misturar os referidos pacientes em um mesmo prédio é péssima (ainda que a Clínica de Especialidades, pelo que pude verificar, possa ser acessada sem que seja preciso “passar” pela área destinada a pacientes com Covid ou com suspeita de Covid), mas como uma ideia assim contribuiria para a valorização da Secretária por si própria ou por outras pessoas?
      Obrigado e até mais!

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