O Monumento ao Homem do Campo

Por Érica Fernanda

O Monumento ao Homem do Campo, que se encontra na Praça Getúlio Vargas, na cidade de Patos de Minas, é carregado de história, porém esta é desconhecida pela maioria das pessoas. Para uma melhor compreensão dos fatos, faz-se necessário voltar um pouco no tempo, a fim de captar sua historicidade.

Em fins da década de 1950, o Brasil vivenciava uma série de mudanças econômicas, sociais, políticas e culturais com vistas a uma nova etapa da modernização capitalista no país. Essas mudanças foram particularmente sensíveis no campo, por meio da expansão agroindustrial, onde difundiu-se a imagem de que o homem do campo teria que se modificar para se enquadrar aos padrões do progresso. Essa modernização viria representar o homem do campo como alguém ativo e inovador, muito distante daquele senhor apático e atrasado que ganhou popularidade com o Jeca Tatu, personagem icônico de Monteiro Lobato. 

Os ecos desse discurso do progresso ressoaram em Patos de Minas, sobretudo com a expansão da Agroceres no município. É justamente nesse ponto de inflexão da história nacional e local que se situa a criação do Monumento ao Homem do Campo. A esse respeito, é necessário pontuar que existem duas versões acerca de quem e de quando surgiu esta ideia de homenagear o trabalhador rural patense.

Na primeira delas, Donaldo Alves Machado Teixeira dá créditos ao Padre Almir. No livro dedicado à vida e à obra do sacerdote –  “Padre Almir Neves de Medeiros: o que a história não conta” –  Teixeira afirma que, em 1961, Almir sugeriu ao então prefeito, Sebastião Alves do Nascimento, homenagear o homem do campo. A segunda versão está no livro “Patos de Minas: Capital do Milho”, de Oliveira Mello. De acordo com o memorialista, a ideia de prestar a homenagem surgiu de Wulfrano Patrício, também em 1961. Estando o radialista na Igreja Santa Terezinha, no Bairro Brasil, ele teria já apresentado aos artistas espanhóis Enrique Pachon Sanchez, Carlos Pachon Sanchez Carlos e Antônio Dias Lopes, os esboços dessa homenagem. 

Independentemente de quem seja a autoria da ideia, o que importa é que ela foi levada ao chefe do executivo patense e foi aceita rapidamente. Antônio Dias Lopez encarregou-se do esboço do monumento, que foi executado por Enrique Pachon Sanchez e Carlos Dias Lopes. Para a construção do monumento foi solicitada a aprovação e ajuda econômica na Câmara Municipal. Segundo Mello, na ocasião discutiu-se, entre outras coisas, um pormenor bastante interessante: sobre qual ombro deveria ficar o balaio de milho carregado pelo homem do campo. 

Aprovada a verba, que era de CR$ 150.000,00 (cento e cinquenta mil cruzeiros), o monumento foi posto em execução, ficando pronto para ser inaugurado durante a III Festa do Milho, em 24 de maio de 1961. A inauguração do monumento e a realização da terceira edição da festa não se deram por acaso. Em linhas gerais, o Monumento ao Homem do Campo representa a estrutura econômica, social, política e cultural que estava sendo incorporada à sociedade patense. O Homem do Campo era o objeto e a Festa do Milho era o meio impulsionador dos interesses de crescimento agroindustrial nos períodos correspondentes às décadas de 1960 e 1970, remetendo a uma imagem que simbolizava o progresso capitalista.  

Segundo Sandra Pesavento [1]:

[…] Uma cidade inventa seu passado, construindo um mito das origens, descobre pais ancestrais, elege seus heróis fundadores, identifica um patrimônio, cataloga monumentos, transforma espaços em lugares com significados. Mais do que isso, tal processo imaginário de invenção da cidade é capaz de construir utopias, regressivas ou progressivas, através das quais a urbs sonha a si mesma.

Pensando com Pesavento, o patrimônio revela ao historiador o fato de que História Oficial lembra-se de preservar e cultuar apenas a memória do vencedor. Ela produz documentos e constrói monumentos relacionados apenas a personalidades políticas de grande vulto, cujos nomes são dados a ruas e praças. Dessa forma, a memória da sociedade se torna a memória do dominador e de seus feitos. Para constatar isso, basta comparar os pesos de memória atribuídos ao Busto de Olegário Maciel e ao Monumento ao Homem do Campo.

Pode-se apontar o caráter rupturista deste último, que diverge da História Oficial do município, uma vez que pretende homenagear não os grandes homens, mas os homens comuns. No entanto, esse caráter rupturista é apenas aparente. Para reforçar a tese de que o Monumento ao Homem do Campo retrata mais a apropriação feita pela elite agroindustrial da história do trabalhador rural do que o reconhecimento dela propriamente dito, lembramos um fato que vem corroborá-lo de modo emblemático. 

No fim da Semana Ruralista de 1977, o Sindicato dos Produtores Rurais, representando o interesse dos grandes empresários agroindustriais da região, criou leilões de gado, feiras de animais e exposições de tratores. Como o pequeno produtor rural não tinha condições financeiras para participar, pois os produtos arrematados tinham um preço elevado que não condizia com o orçamento, uma grande parcela acabou sendo excluída desse processo e deixando a semana ruralista. Sob essa perspectiva, a inscrição feita no pedestal da estátua, que diz “O Município ao seu ‘Herói Anônimo‘”, é de uma ironia suplementar, pois revela de antemão que os trabalhadores rurais da cidade, na visão das elites, não têm personalidade, ou seja, que são lembrados apenas quando correspondem aos interesses do capital, sendo logo em seguida esquecidos.


Nota:

[1] O trecho, escrito por Sandra Pesavento, é citado por Paulo César Tomaz na página 25 de seu livro, que está referenciado abaixo.

Referências:

MELLO, Antônio Oliveira. Patos de Minas: Capital do Milho. Patos de Minas: Academia Patense de Letras, 1971.

TEIXEIRA, Donaldo Amaro. Padre Almir Neves de Medeiros – o que a história não conta. Patos de Minas: Edição do Autor, 2016.

TOMAZ, Paulo Cesar. A Preservação do Patrimônio Cultural e sua Trajetória no Brasil. Revista de História e Estudos Culturais. V. 7. 2010.

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