NUNCA HAVERÁ UTOPIA PRETA EM HIPERMERCADO FRANCÊS

A morte de João Alberto, assassinado no Carrefour por seguranças brancos, no Dia da Consciência Negra, é o ponto de partida da nova crônica de Lucas Pires

Por Lucas Pires
Era pra ser feriado, mas por certo vão abrir o hipermercado. Aquele mesmo que ontem fez morrer João espancado. É assim, nesse mundo, preto já acorda cansado depois de uma semana inteira ter trabalhado para nosso povo ser lembrado no que chamam de consciência negra. Consciência. Negra.

É exaustivo! Esse texto era pra ser sobre utopia. Tudo bem que eu nem esperava tanto, afinal a gente só passa por desencanto e o máximo que eu faria seria despejar num arquivo do word toda a minha agonia. Mostrar que desmanche do racismo é desmanche do sistema, mas aí chamam isso de radicalismo e a morte do João vira fatalismo até pra quem deu audiência pro Black Lives Matter quando, no Brasil, isso virou tema. Vão postar que estão de luto de novo e mostrar que sentiu pena?

Eu escrevi cinco crônicas. Winnie distribuiu livros. Emicida está lá produzindo músicas. Silvio Almeida escreveu livros. Natania ralou pra produzir um álbum. Os pretos estão gritando e os brancos se espreguiçando pedindo pra preto tudo explicar. Estamos desde sempre tentando falar, mas só absorvem o que não dói em vocês enquanto, de cá, da dor somos freguês e ainda temos que falar baixo pra não soar agressivo. Porque a gente apanha o tempo todo, mas ainda assim a gente tem que ser cortês.

O que vocês estão esperando? Falei mil vezes da mesma problemática e me chamaram de exagerado mas quando Túlio Gadêlha tuitou o mesmo, de “fado sensato” é que foi chamado. Lógico, ideia de preto só é válida quando por branco é falado. Vocês são canalhas ao ponto de não reconhecer que vocês só perpetuam o que há muito tem nos matado. É nas mãos brancas que tem sangue preto derramado. Porque não questionam aqueles cujos antepassados fizeram esse sistema ser estruturado? Mas não. Na cabecinha racistinha de vocês, preto é que tem que ser perguntado. Tanta gente preta produzindo coisa bacana, mas vão lá! Compartilhem Felipe Neto, já que um preto vocês não conseguem ver aclamado.

João Alberto Silveira Freitas. Miguel Otávio Santana da Silva. João Pedro Matos Pinto. Ágatha Vitória Sales Félix. Kauê Ribeiro dos Santos. Kauã Vítor Nunes Rozário. Maria Alice de Freitas. Ítalo Augusto de Castro Amorim. Amarildo Dias de Souza. Rayanne Lopes. Daniquel Oliveira da Silva. Claudia Silva Ferreira. Evaldo dos Santos Rosa. Luciano Macedo. Anderson Pedro Gomes. Marielle Franco. Presentes! Mas eu lá queria sementes?

Não tem rima. Existe genocídio negro no Brasil e no mundo justificado por uma guerra às drogas. Mas a justificativa real mesmo é a criminalização do nosso povo. Isso é o mais grave. Junto a tantas outras problemáticas que são apenas sintomas de um sistema chamado capitalista que foi construído tendo o racismo como alicerce. Vocês entendem? Racismo é alicerce do capitalismo. Junto com o patriarcado, com o moralismo cristão. Findar o racismo é ruir o capitalismo. E vice-versa. Mas o Estado ainda protege o hipermercado francês, afinal precisa garantir “empregos”.

Vocês não veem? Acho que não. Nosso corpo é alvo de bala. As instituições impedem a entrada de negros, pois sabem de algum modo que isso seria desmantelamento do sistema. Isso é nossa luta de todo dia enquanto nossos corpos são hipersexualizados, enquanto nossas posições são questionadas, enquanto a gente tem que explicar tudo e com voz baixa, porque branco não quer sair da sua zona de conforto. Não tem paz! Não existe paz! Na verdade, é em nome dela que somos mortos.

Acordei pra escrever um texto sobre “Utopia Preta”. Só que João Alberto Silveira Freitas foi assassinado num supermercado. Repito: João Alberto Silveira Freitas foi assassinado num supermercado. Da mesma rede em que uma mulher foi despedida após denunciar racismo. Da mesma rede que em cobriram o corpo de um cidadão com guarda-sóis para que a loja não parasse de funcionar. Utopia Preta só será vivida quando esse sistema for desmantelado. Mas a gente sabe que entre corpos pretos e lucro, o hipermercado será protegido. Merci beaucoup de nous avoir tués.

João Alberto Silveira Freitas, presente! Mas eu não queria semente.

Texto publicado originalmente no dia 20 de novembro de 2020, Dia da Consciência Negra. A crônica integra o projeto Crônicas – perspectivas de um gay negro mas nem tanto! do referido autor.

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