Lições de Brecht: sobre verdade e comunicação

Sobre “Cinco dificuldades no Escrever a Verdade”, ensaio de 1934.

Certamente você já deve ter ouvido a frase “uma mentira dita mil vezes torna-se verdade”, atribuída a Joseph Goebbels, o Ministro da Propaganda nazista. Por óbvio, poderíamos testar a validade dela para os discursos hegemônicos da atualidade. Constataríamos que, por exemplo, mentiras como “liberalismo aduaneiro gera desenvolvimento em países pobres”, “o governo Bolsonaro acabou com a corrupção”, “Sérgio Moro foi um juiz imparcial”, “a China criou o coronavírus para dominar o mundo” se impõem pela repetição e já são difundidas por uma quantidade significativa de pessoas. Até o fato de essas mentiras se tornarem pautas de debate indica que a repetição massiva delas tem um efeito considerável, ainda que seja para desestabilizar consenso e bom-senso.

Se a mentira é manipulável e facilmente se torna ferramenta e fundamento de projetos de dominação, a verdade, no entanto, não se espalha tão facilmente. Ela tem uma margem de manobra bem mais restrita. Em tempos de fascismo, comunicação de massa e tecnocracia, talvez sejam úteis, então, as recomendações de Bertold Brecht.

O dramaturgo, diretor e poeta comunista fez ecoar a oposição ao nazismo em um contexto bastante conturbado. Exilado na Dinamarca, em 1934, Brecht escreveu um ensaio chamado “Cinco dificuldades no Escrever a Verdade” [1]. O texto circulou clandestinamente em plena Alemanha Nazista, graças ao esforço de contrabando. Seu objetivo era instigar os escritores que ainda viviam na Alemanha a usarem suas habilidades e astúcia para resistir ao regime hitlerista. Depois da Guerra, o texto também foi retomado. Porém, naquele contexto de “democratização”, soava fora de lugar um aconselhamento sobre como dizer a verdade. Afinal, parecia fácil dizê-la.

Ocorre que, em nosso tempo, quando a repercussão das informações tem mais impacto político do que sua veracidade, dizer a verdade pode ser um esforço em vão, caso ela seja dita sem a astúcia de que falava Brecht. Ao escrever seu ensaio, o autor deixou claro que estava se dirigindo tanto a quem vivia sob o fascismo quanto a quem vivia em países de “liberdade burguesa”. Uma vez que a democracia burguesa no Brasil está em processo de corrosão, chegando a mostrar frequentemente sua ossatura autoritária, pensemos nos conselhos de Brecht.

Estranhem o que não for estranho
Tomem por inexplicável o habitual
Sintam-se perplexos ante o cotidiano
Tratem de achar um remédio para o abuso
Mas não esqueçam de que o abuso é sempre a regra.

(Brecht – A exceção e a regra)

A primeira dificuldade apontada por ele é a necessidade de coragem para dizer a verdade. Tal necessidade se impõe porque dizer a verdade pode significar perda de posição social e renúncia do que Brecht chama de “glória dos potentados”. Para ele, a verdade não raramente pode soar mal e até contrariar as percepções dos “vencidos”, dos perseguidos e oprimidos: “cumpre dizer que os bons são vencidos não porque são bons, mas porque são fracos”. Essas colocações são um balde de água fria em certa esquerda derrotista, que aplaude os bons esmagados e repudia o uso da força pelos que ousam defender-se.

Reconhecer quais verdades que precisam ser ditas compensam o esforço de dizê-las em um regime de vigilância e retaliação é outro desafio analisado por Brecht. Afinal, não é difícil dizer verdades triviais, descrever pequenos acontecimentos sem investigar suas relações com a totalidade histórica ou realçar a importância de algo até que ganhe proporções sublimes ou impactantes. Por exemplo, a mídia policialesca diz muitas verdades, mas está presa à “tirania do último informe” tanto quanto às suas amarras ideológicas, que se escondem na pretensão de neutralidade.

Em complemento, outra dificuldade é saber transformar a verdade em arma. Ao falar disso, o dramaturgo marxista escancara a hipocrisia dos críticos inconsequentes do fascismo de seu tempo, mas a denúncia serve para os dias de hoje, marcados pelo estranho e inócuo “antifascismo” liberal. Merece destaque a crítica que o texto faz aos que ficavam “fantasiando sobre os alemães, choramingando sobre o mal, romanceando as coisas”. Ela também se aplica hoje a muitos dos que se entendem como “de esquerda” e que, perplexos e inertes diante da destruição bolsonarista, atribuem tudo a uma “crueldade” do presidente, chegando a pregar contra os radicais e em favor de uma grande frente de centro-direita. De nada adianta vociferar contra a barbárie sem atacar ou explicitar as suas causas, sem apontar quais são os interesses que causam as catástrofes. Enquanto arma, para Brecht, a verdade é prática.

A penúltima dificuldade elencada pelo autor é identificar a quem se deve transmitir a verdade, visando sua eficiência. Nesse ponto, Brecht defende que não se pode falar apenas a quem tem posição política definida: é preciso falar a quem já deveria ter tomado essa posição em virtude de sua situação. A verdade pode ser uma arma para quem a lê, mas, para isso, é preciso fazer com que ela chegue a quem mais pretende usá-la.

A última dificuldade é a da astúcia. Consiste em não veicular interpretações inexatas, em retirar a “mística podre” das palavras, a fim de que elas comuniquem a concretude dos fatos. Entretanto, é preciso lidar com a vigilância (pensemos no contexto da Alemanha dos anos 1930) e, tendo isso em vista, é também necessário dizer o essencial sem, contudo, entregar-se abertamente à repressão. Exemplificando com Confúcio, Thomas More, Lênin, Voltaire, Shakespeare, o dramaturgo alemão nos mostra que a verdade é combativa, está sempre em guerra, mas, como em guerrilha, precisa ser ágil, confundir o adversário e ser certeira em suas investidas.

Brecht não definiu a verdade em seu texto. Ele apenas disse qual era a verdade de sua época. Nem por isso deixa de ser atual: a Europa de Brecht sucumbiu ao fascismo por querer manter as relações de propriedade dos meios de produção, porque o fascismo é a forma bruta, a verdadeira face do capitalismo. Essa verdade ainda aflora entre o chão de escória das mentiras amplamente disseminadas.


Nota
[1] O breve ensaio está disponível, em português, no Arquivo Marxista na Internet, embora com alguns problemas de tradução e/ou recorte de texto. Aqui há também outra versão, em inglês, que pode ser útil.

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