Por José Vinícius Peres Silva
O termo Equilibrium, do latim, é a junção de duas outras palavras dessa língua: equidade com justiça. Equilibrium (estilizado como EQUILIBRIVM) é também o nome do novo projeto da cantora pop brasileira Anitta. Mais do que qualquer álbum da cantora, ele é, ao mesmo tempo, o disco mais calculado e o mais pessoal de sua carreira. Pois, depois de muitos anos vendo a cantora se dedicar fundamentalmente ao mercado externo da música pop, o novo projeto parece interessado em lembrar que existe uma artista bem brasileira, instigada em revelar uma realidade própria do seu país de origem.
Lançado no mês de abril deste ano, 2026, pela Republic Records, Universal Music Latin e Floresta Records, o álbum contém ritmos e sons muito comuns nas produções da música alternativa brasileira contemporânea. Nesse sentido, é um álbum que foge das raízes típicamente radiofônicas e enlatadas para fazer um sucesso rápido de acordo com os moldes de uma determinada época. Esse detalhe é muito importante porque o próprio disco foi resultado de um estudo muito bem elaborado em vários pontos sobre a “brasilidade”.
Anitta mergulha nesta obra por sonoridades autenticamente brasileiras, sobretudo às de matriz africana, tais como o samba, o reggae, a MPB e, o mais interessante de todos, o “Macumba Beats”, termo denominado por ela inspirado no ritmo dos terreiros de Candomblé e Umbanda. Nesta obra, nota-se também algumas músicas feitas sob medida para atingir, de forma tímida, o mercado latino, porém, isso não chega a prejudicar a obra como um todo, retirando a centralidade das referências brasileiras. É justamente nessas referências que estão o seu brilho e a sua identidade. E que identidade…
Equilibrium afasta de vez a ideia, que muitas vezes a crítica se recusava a entender: Anitta não é somente uma cantora, mas um projeto de tradução cultural. No referido trabalho, ela não faz apenas uma conversão de palavras das várias línguas que domina. Ela, ao contrário, faz adaptação e negociação de sentidos, considerando as especificidades culturais dos locais que deseja alcançar, que são os vários países da América Latina e os Estados Unidos, dois grandes nichos do mercado da música pop mundial.
Mais do que uma mera fase artística na qual a cantora se arrisca despropositadamente, Equilibrium, é um exemplo de avanço em sua identidade estética, que não se limita a uma única expressão fixa.
Desde o álbum Bang (2016), isso já estava evidente em sua carreira. Foi nesse momento que Anitta se transformou em uma popstar visualmente sofisticada, embalando o funk carioca numa estética mais limpa, mais publicitária e, portanto, mais “pop”. A partir daí começou um incômodo que ronda até hoje grande parte da representação que se tem sobre a Anita: suavização do funk. Os comentários, super válidos aliás, refletiam uma apresentação mais límpida do estilo historicamente associado a comunidades periféricas de grandes cidades como é o Rio de Janeiro, de onde a cantora é natural. Ela retirava a face mais crua da sexualidade tal como se manifestava nesse gênero musical, para transformá-la em um produto exportável. Tal questão não é de todo falsa, ainda que tenha ganhado ares de verdade absoluta.
É nesse contexto que surge uma ironia na carreira da cantora: se de uma lado ela era criticada por “suavizar” o funk, de outro, era atacada justamente pela hipersexualização que promovia por meio dele. Enquanto setores conservadores a colocaram no posto de uma liberal no campo sexual, que expunha o corpo, andava com roupas provocantes e sensualizava nas danças. Já setores progressistas atacavam a sua superficialidade, o foco no sexo e a falta de“consciência” social. Desde então, Anitta tem ocupado esse lugar ambivalente: vulgar demais para uns, domesticada demais para outros. É aqui que o Equilibrium emerge para problematizar essas narrativas.
Ancestralidade, religiosidade e memória musical
A primeira parte do álbum é o momento no qual a cantora reivindica mais explicitamente suas “qualidades propriamente artísticas”, que muitas vezes ficavam escondidas por detrás de uma personagem pop. As referências ao Candomblé e à Umbanda1 aparecem aqui não como uma mera estética decorativa, mas como uma espécie de eixo conceitual que organiza a construção do álbum. Orixás, espiritualidade, ancestralidade e proteção atravessam as letras de modo frontal. Além disso, as participações especiais, operam uma completa mudança na atmosfera do projeto, demonstrando uma Anitta menos preocupada em performar o controle absoluto do álbum e mais em sintonia em compartilhar com os convidados, que aparecem como protagonistas que contam a história e não como coadjuvantes forçados visando parcerias de sucesso.
Em Equilibrium, há um ponto específico no qual o disco deixa de parecer apenas “o novo álbum da Anitta” e passa a revelar outras ambições. Refiro-me aos momentos em que aparecem as referências a “Cordeiro de Nanã“, de 1977, do grupo Os Tincoãs e “Canto de Ossanha”, de Vinícius de Moraes, de 1966, com coautoria de Baden Powell.
Duas citações que aparecem respectivamente na música Nanã, em parceria com com os rappers Ricon Sapiência e KING Sants, e de “Mandiga”, em parceria com Marina Senna entregam uma chave de leitura importante: Anitta não está tentando inventar uma espiritualidade pop brasileira, ela está sim tentando se inserir numa linhagem. Esse é um elemento importante, onde tudo muda.
Numa primeira visada, parece fácil entender o projeto como uma proposta do tipo “Anitta levando macumba pra gringo”. Mas, esse entendimento nos leva a um caminho fácil demais, como se tratasse tão somente de uma artista pop global usando símbolos afro-brasileiros como estética exótica para a exportação internacional. Trata-se de algo por demais óbvio, sobretudo se levarmos em consideração que o conceito de “identidade” é amplamente usado no mundo publicitário de hoje, resultando em seu quase esvaziamento. No entanto, o Equilibrium parece seguir uma direção contrária. O álbum não tenta transformar as religiões de Matriz Africana em tendência. Na verdade, ele trata essas referências como continuidade cultural, evitando assim sua completa banalização.
Ao trazer uma citação direta à “Canto de Ossanha”, Anitta mira num momento muito específico da Música Brasileira, no qual a ancestralidade africana foi largamente utilizada pela MPB clássica, sobretudo nas décadas de 1970 e 1980. Tal presença emergia não apenas como tema, mas essencialmente como linguagem estética, na qual o que estava em jogo não era cantar sobre o amor à brasilidade em abstrato, mas antes, criar uma forma de reorganizar a própria ideia de música brasileira a partir de matrizes africanas, sublinhando sua religiosidade, seu ritmo e seu corpo.
O trabalho parece entender profundamente isso, na medida em que reivindica explicitamente uma tradição preocupada em manter essas referências. Paradoxalmente, as participações do disco não são de artistas brasileiros responsáveis por essas mudanças, como Caetano Veloso que já participou de algumas composições com a artista. Aqui as colaborações são de artistas com um projeção atual extremamente refrescante que ajudaram a reviver a MPB clássica com traços atuais. Como é o caso de Liniker, na faixa Caminhador e Luedji Luna, na faixa Bemba.
Esse gesto de Equilibrium, extremamente inteligente, aliás, é justamente o de não se vender como pioneiro de nada. O disco inteiro traz e funciona numa lógica de reverência. De pedir licença. O que, inclusive, conversa diretamente com princípios das religiões de matriz africana: reconhecer a ancestralidade, respeitar quem veio antes, entender a continuidade como valor espiritual. Em vez de “olhem como a Anitta descobriu o Candomblé”, o álbum soa mais como “olhem como ela é capaz de reverenciá-lo ”. Isso traz para o projeto uma dimensão de curadoria muito mais sofisticada do que a de um simples produto de fácil absorção pelas redes sociais, como vemos hoje em dia.
O Brasil é apresentado neste trabalho não como uma tendência passageira de consumo global, à semelhança das tendências atuais do Brazil Core que se popularizaram internacionalmente, principalmente com o uso das cores verde e amarelo e camisas da seleção brasileira. Esse, aliás, poderia ser um caminho fácil que Anitta poderia ter percorrido. O disco, no entanto, apresenta o Brasil como linguagem, como história acumulada, como permanência. Talvez seja isso que aproxima o álbum de certos momentos muito específicos da cultura pop contemporânea. Afinal de contas, não é só lançar música. É reorganizar a conversa cultural em torno de uma imagem, de uma estética e de uma leitura de mundo.
O mercado global e a busca por equilíbrio
Mas, também não podemos romantizar tudo. O segundo ato do disco chega justamente para lembrar que a indústria continua existindo. Algumas músicas aparecem em espanhol e outras com trechos em inglês, “So much love”, “Pinterest” e uma releitura do hit em espanhol de “Várias Queixas”, do grupo baiano Olodum, popularizado por um versão do grupo Gilsons. Tais músicas ganham uma estrutura mais próxima do reggaeton e do pop latino contemporâneo. A presença de Shakira em “Choka Choka” funciona quase como símbolo dessa passagem para a própria Anitta, que tem na artista colombiana uma grande inspiração. Não por acaso, Shakira sempre foi a grande referência de artista latina, capaz de sobreviver ao mercado estadunidense sem abandonar totalmente sua identidade local. Algo que hoje a própria Anitta parece ter conseguido, ao menos parcialmente.
Desde o projeto “Xeque Mate”, a cantora passou a organizar a sua própria carreira de forma imbatível: com idiomas, mercados, sonoridades e públicos diferentes. O que faz e fez da sua trajetória algo profundamente empresarial. Mesmo em Equilibrium isso não desapareceu completamente. Mesmo quando canta sobre espiritualidade, o disco parece saber empacotar essa espiritualidade para circulação global.
No entanto, seria muito simplista reduzir isso apenas à questão de mercado, como já dito anteriormente. Porque realmente existe uma camada genuinamente brasileira no álbum, e não naquele sentido turístico de exportação de estereótipos. Aliás, “Girl from Rio”, famoso single de 2022, já mostrava como Anitta entendia os limites dessa representação, usando o sample “Garota de Ipanema”, de 1962, para confrontar o imaginário estrangeiro sobre o Rio contemporâneo. Essa foi uma forma inteligente de expor como o Brasil vendido ao exterior quase sempre precisa ser filtrado, embranquecido ou folclorizado, ainda que de forma bem simplista.
Equilibrium leva e eleva essa discussão para outro patamar. O álbum inteiro não gira apenas em torno da problemática do que é preciso ser traduzido para que o Brasil seja consumido lá fora”. O Equilibrium consegue ainda fazer tudo isso e ainda soar como um disco introspectivo. O álbum é pop, extremamente calculado visualmente, cheio de potencial viral que, ao mesmo tempo, parece convidar constantemente o ouvinte a “desacelerar”. O que é quase um contrassenso dentro da lógica atual da indústria musical.
Sob essa perspectiva, o título do álbum começa a fazer mais sentido, pois o Equilibrium parece construído em diálogo direto com as cosmologias africanas presentes tanto no Candomblé como na Umbanda. Não no sentido superficial de usar símbolos religiosos como figurino, mas na própria maneira como organiza suas tensões internas. O álbum parte de uma percepção muito contemporânea ao perceber que: nós vivemos em uma cultura do excesso. Excesso de imagem, excesso de opinião, excesso de estímulo, excesso de consumo e principalmente excesso de performance nas redes sociais.
Como boa parte das formas dominantes de espiritualidade hoje acabam funcionando dentro dessa mesma lógica da “intensidade”, existe uma leitura muito forte atravessando o projeto de que, na tradição judaico-cristã européia, a relação com a fé frequentemente gira em torno de separações rígidas: sagrado versus profano, pecado versus pureza, desejo versus salvação. A manifestação religiosa aparece sempre associada à renúncia, à culpa e à privação. Já nas religiões de matriz africana, pelo menos na forma como o álbum parece interpretá-las, o eixo não é a negação da vida, mas sua potencialização por meio de um equilíbrio dinâmico de forças.
Festa e fé não são opostos. Comida, dança, bebida, prazer, espiritualidade, corpo e rito podem coexistir sem necessariamente produzir contradição moral. Não existe exatamente um convite para deixar de ser quem você é. Existe um chamado para reorganizar suas ações, suas relações e sua energia.
Talvez seja exatamente aí que o projeto encontre sua dimensão mais interessante dentro da carreira da cantora. O álbum não constrói a narrativa clássica da “conversão”. Não existe uma Anitta pecadora abandonando excessos para encontrar iluminação espiritual. O disco propõe algo muito mais ambivalente e, talvez, muito mais honesto. A ideia não é destruir a persona construída ao longo da carreira, mas aprender a coexistir com ela de outra maneira. Adaptar a vida ao espiritual sem deixar de existir no mundo.
Isso também acaba produzindo uma leitura indiretamente política do projeto. Desde 2018, a ascensão de movimentos conservadores, ligados à extrema direita, transformou o ambiente cultural brasileiro num espaço de ataques permanentes. Anitta virou alvo preferencial tanto da extrema-direita quanto de setores da esquerda. Não importa o que dissesse: sempre era insuficiente ou contraditório demais. Empresária demais para ser progressista exemplar. Pop demais para ser levada a sério. Sexual demais para ser respeitada. Estratégica demais para ser considerada “autêntica”.
Quando o álbum fala sobre intensidade, ataques constantes, hiperestímulo e desequilíbrio, ele inevitavelmente encosta no ambiente social contemporâneo. Como exemplo, as redes sociais funcionam como máquinas permanentes de radicalização emocional. Discursos religiosos transformados em linguagem de guerra moral. Movimentos ultraconservadores organizados em torno da demonização do outro. Masculinidades digitais paranóicas, cultura red pill, ataques a minorias, consumo infinito de imagens e estímulos.
Tudo parece operar numa lógica de excesso permanente. Nesse contexto de terra arrasada, Equilibrium surge quase como um gesto de recusa dessa aceleração contínua.
O mais interessante é que o disco faz isso sem abandonar completamente o pop. Anitta continua entendendo perfeitamente o funcionamento da indústria, do algoritmo e da circulação global de imagens. Mas, pela primeira vez em muito tempo, parece menos interessada em oferecer intensidade infinita como produto. O álbum quer outra coisa. Quer convencer o público de que talvez exista uma maneira menos violenta de existir no mundo.
Talvez a maior qualidade de Equilibrium seja justamente não tentar resolver nenhuma dessas contradições. O disco entende que Anitta só existe artisticamente porque é atravessada por todas elas ao mesmo tempo. Entre o terreiro e o Spotify global. Entre o funk e o reggaeton. Entre o corpo hipersexualizado e a busca espiritual. Entre a empresária de sucesso e a figura pública que precisou se posicionar contra a extrema-direita, como fez nas duas últimas eleições federais.
No fim, Equilibrium não é um álbum sobre encontrar paz. É sobre aprender a sobreviver ao conflito permanente de ser uma artista brasileira tentando existir dentro da engrenagem pop global. E, goste-se ou não de Anitta, poucas pessoas entenderam tão bem essa engrenagem quanto ela. Uma verdadeira junção do sentido mais literal do Equilibrium, equidade + justiça.
- Para entender mais sobre representação visual do Candomblé e da Umbanda, indico minha Dissertação de Mestrado: Pompa e Requinte: memória visual do Candomblé e da Umbanda em Montes Claros, defendida junto ao Programa de Pós-Graduação em História da Unimontes em 2019. Disponível em: https://repositorio.unimontes.br/handle/1/2371. Acesso em: 07/06/2026. ↩︎


