Ele, o Cabelo

Em crônica, autor negro narra sua dificuldade em cuidar do cabelo. O assunto, desemboca em reflexões sobre racismo e identidade.

Por Lucas Pires

Caramba, se for pra eu ter que ficar fazendo esses relaxamentos uma vez por mês pra conseguir deixar esse Cabelo mais apresentável, haja grana e rinite atacada com esse cheiro horrível. Não queria deixá-lo com a mesma aparência de sempre: cortado a ponto de quase ficar careca. É só ele ficar mais grandinho que já aparecem as insistentes perguntas, vozes na rua, sobre quando vai rolar um corte e retrocedi todas as vezes que me disseram isso. Se eu ao menos tentasse deixá-lo com um aspecto que possa evidenciar um bom cuidado, quem sabe esse falatório diminuiria e eu saio dessa aparência um pouco?

Estou estudando umas técnicas de cuidado de cabelo cacheado com algumas blogueiras. Achei aqui uns vídeos e falaram de um tal no poo ou low poo, um conjunto de cuidados capilares que dizem ser a saída. Caralho, mas cuidar de um cabelo cacheado precisa disso tudo? Me parece que precisa e que, além de mudar toda minha rotina, ainda existe toda uma dificuldade de encontrar os produtos ditos “liberados” pela técnica capilar. Os produtos do mercado da esquina são cheios de componentes que a técnica diz serem proibidos pro meu Cabelo, e até mesmo ali naquele hipermercado ao lado do shopping, está difícil de achar. Poxa, se eu tivesse feito aquelas químicas que feriam meu couro cabeludo e irritavam até minha garganta, qualquer um desses outros produtos aqui já iriam servir.

“Cultivar o Cabelão não é mesmo fácil. É o cacho não ficar tão definido e alguém já aparece questionando algo do tipo “vi mesmo que hoje ele está meio bagunçadinho”

Ok, beleza! Eu vou testar esse baratinho que vi na promoção aqui nesse site e que, segundo aquele vídeo que minha amiga indicou, funciona muito bem. Realmente, aquele canal é bom. Deu dicas de produtos mais baratos, já que os que eram mesmo pra cabelo cacheado e desenvolvidos sem componentes considerados “proibidos” pela tal técnica começaram até ter nas prateleiras, mas são bem carinhos. Estou passando um monte de comida no Cabelo que falaram ser ótimo: maisena, leite, café, maionese. E, inacreditavelmente, funciona!

Tem uma manteiga de hidratação aqui que vou comprar nem que seja pra dividir em quatro vezes no cartão porque meu Cabelo não fica hidratado fácil. Uma hora eu ainda consigo comprar aquele creme de pentear pra finalização que promete definir meus cachos por até três dias. Nem imagino o que é conseguir meus cachos definidos por três dias consecutivos. Nossa, eu vi a blogueira falando que conseguiu quatro! Minha amiga conseguiu dois, mas se eu conseguir definir bem por um dia, já vai ser ótimo. Tá difícil fazer cacho, hein! Aqui atrás ele até define legal, mas aqui na frente é muito frizz! Não vai ser legal eu ir no rolê com o pessoal do trabalho hoje tendo essa coisa toda sem definição aqui na frente.

Cultivar o Cabelão não é mesmo fácil. É o cacho não ficar tão definido e alguém já aparece questionando algo do tipo “vi mesmo que hoje ele está meio bagunçadinho”. Meu Cabelo se tornou uma presença marcante nos espaços. Atrai olhares, opinam sobre ele, querem tocar nele — tira a mão, caralho! “Nossa tá ficando um black, massa hein!”. Black? Mas como assim black? Quem tem black é negão! Talvez tenha alguma verdade aqui escondida. Vou ver esse vídeo que minha amiga me mandou: “Branco demais pra ser preto, preto demais pra ser branco”. Realmente é confuso isso… Ok, eu sou moreninho. Ok, eu tenho uma boca com lábios elogiáveis apesar do meu nariz não ser tanto. Inclusive uma rinoplastia cairia bem. Mas pensando bem, hoje vejo que esse Cabelo combina mais com todo meu rosto. Me olho no espelho e me sinto mais do que nunca em mim. O que está ali refletido faz mais sentido do que todas as outras imagens que tentei ter de mim. Uma imagem agora que não é tão aprovada por aí, mas que me faz amar mais a mim mesmo. Que parece muito mais com quem sou do que com aquilo que já tentei ser, mas que eu não era. De fato, não me sinto branco.

“Meu Cabelo se tornou uma presença marcante nos espaços. Atrai olhares, opinam sobre ele, querem tocar nele — tira a mão, caralho!”

Por acaso sou negro? Meus amigos estão rindo de mim sinalizando que a resposta ao meu questionamento é óbvia. Bom, vou perguntar também ao meu pai: “poxa, pai, vi um vídeo na internet e acho que sou negro”. Falar isso pra ele me fez sentir como quando eu precisava me assumir gay pra minha família. “Mas agora que você descobriu isso!?”. Caramba! Realmente, não deve ter sido à toa que ele e minha mãe me chamaram de negão uma vida inteira. Assim como toda família da minha mãe, com meus primos loiros, me chamava desde quando eu tinha apenas sete anos. Que sete anos, não chegava nem a cinco! O mesmo não acontecia com a família do meu pai: meu avô era retinto e minha vó é chamada de Dona Índia na cidade onde vive. Nunca tinha tido muito contato com todos eles e nem soube muita história sobre de onde vieram. Já a história dos avós da minha mãe sempre me pareceu interessante. Eles eram descendentes de portugueses, dizem que até tinham vinícola em Portugal.

Acho que é isso mesmo. Devo ser negro mesmo então. Talvez tenha sido por isso que ouvi piadas sobre pretos uma vida inteira dirigidas a mim, tanto por família quanto pelos amigos da época da igreja. Caralho, acho que eles me viam como negro e só eu não percebi.

Estou pensando demais enquanto tomo esse café e está quase na hora de pedir um uber. O ônibus sai da rodoviária daqui quarenta e cinco minutos. Vou de chinelo mesmo! Pra quê calçar tênis pra três horas de estrada? E não vou passar creme de pentear nesse Cabelo. São cinco da manhã, está todo mundo com cara de sono e três horas de viagem vão bagunçar meu Cabelo todo. Não quero ter que arrumar ele de novo quando chegar lá.

Acordo no meio da viagem. É o motorista me perguntando quem fumou dentro do ônibus. Eu lá ia saber!? Que bizarro alguém fumar dentro do ônibus. Mas estou aqui explicando ao motorista que nem fumo, que se ele quiser pode até mexer nas minhas coisas pra ver se acha algum cigarro. Ele começa a gritar dentro do ônibus, todo mundo me olha, fico desconfortável. A viagem segue e só consigo sentir constrangimento. Afinal, o que está acontecendo? Será que é o que estou pensando? Olho pro meu chinelo, lembro do meu Cabelo que não finalizei antes de viajar, dou uma olhada rápida pelo ônibus sentando no meu banco. Vejo que ao menos o cabelo das outras poucas pessoas aqui dentro, no máximo dez, são lisos. Não consigo ver a cor da pele de ninguém. O cara que estava na poltrona oposta à minha se levanta pra ir ao banheiro, falando sozinho com palavras enroladas, cambaleando e cheirando à álcool. Não consigo voltar a dormir, me sinto angustiado. O ônibus chega ao seu destino final e na hora de pegar as malas concluo o que imaginei: todos os outros no ônibus eram brancos, exceto eu.

“Acordo no meio da viagem. É o motorista me perguntando quem fumou dentro do ônibus. Eu lá ia saber!? Que bizarro alguém fumar dentro do ônibus. Mas estou aqui explicando ao motorista que nem fumo (…)”

Desconforto semelhante sinto indo tomar um café no shopping. Acordo já um pouco tarde e com fome, não vou arrumar o cabelo pra ir a duas esquinas de casa e nem me produzir todo pra isso. Pego meu café, sento em uma mesa e uma senhora que está na mesa ao lado com uma criança me olha de cima embaixo, pega rapidamente a criança e senta duas mesas distante da minha antes de me encarar uma última vez. Ok, senhora! Da próxima eu finalizo o Cabelo, deixo os cachos definidos e calço um tênis, me desculpe, não vou agredir ninguém. Eu só estou com um pouco de preguiça e fome, e meia hora pra arrumar o Cabelo dá trabalho demais pra quem só quer tomar um café.

Acho que o rapaz do YouTube está certo. Se a galera acha que eu faço uma porrada de coisa errada só porque meu Cabelo está grande e meio bagunçado como por vezes me dizem, talvez eu seja vítima de racismo mesmo. Vítima é uma palavra estranha. Dizem que não é legal falar que sou uma vítima porque estaria fugindo dos meus próprios erros ou falta de cuidados, das minhas responsabilidades diante as situações, embora eu não consiga achar culpa em mim diante aquele olhar da senhora e da bronca do motorista.

“Talvez seja isso, eu nunca havia me entendido como negro, pois nunca deixaram. Era melhor fingir que era branco ou me camuflar, pra não mostrar tanto aquilo que sou”

Passa o tempo e a realidade me amargura. Pesa nas minhas costas, uma pesada carga. Bom, se isso é racismo, então só consigo ver uma lógica imediata: negro! Dentro de mim ressoa essa palavra. Mas segundo uma conhecida, se eu voltar com o cabelo curtinho nem vai ficar parecendo que sou negro. Talvez seja isso, acho que nunca deixaram me perceber assim. Talvez seja isso, eu nunca havia me entendido como negro, pois nunca deixaram. Era melhor fingir que era branco ou me camuflar pra não mostrar tanto aquilo que sou e nem me entender como tal. Afinal, entendi. Afinal, já não retrocedo. Sobre meus questionamentos, hoje tenho a chave. Hoje amo minha imagem. Se está estilosa, como muitos dizem, eu não sei, não era essa a intenção. Eu só queria não ter mais ter o Cabelo curto e nem ficar passando aquele tanto de produtos químicos fortes. Mas me gritaram negro!

*Texto publicado originalmente em Crônicas – perspectivas de um gay negro mas nem tanto! Projeto do referido autor.

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