Editor de A questão feminina em nossos meios, de Lucía Sánchez Saornil, conta em entrevista um pouco sobre os bastidores do livro

Lucía Sánchez Saornil foi uma mulher extremamente moderna e inovadora, que estava muito à frente de seu tempo

A seguir, publicamos  a versão em português da entrevista dada por Thiago Lemos Silva a José Maria Oterino, sobre os bastidores da edição do livro A questão feminina em nossos meios, de Lucía Sánchez Saornil ( Biblioteca Terra Livre/ Editorial Eleutério). A entrevista foi originalmente publicada em espanhol, no jornal Addenda – Suplemento Cultural del Rojo y Negro, no número  41, em novembro de 2016. Em Patos de Minas, o presente livro pode ser adquirido na Livraria Ambulante Comuna de Patos.

Por Thiago Lemos Silva e José Maria Oterino

Quando nasceu a ideia de publicar esta recopilação  de artigos?

Desde 2013, quando assisti ao documentário Indomables. Una historia de Mujeres Libres, do nosso querido companheiro Juan Felipe, eu fiquei encantado com a figura de Lucía Sánchez Saornil, que,  ao lado de Mercedes Comaposada e Amparo Poch y Gascón, foi uma das iniciadoras da Revista e Organização Mujeres Libres. Embora a biografia de todas seja fascinante, a de Lucía prendeu minha atenção de modo muito especial. A infância pobre no bairro de Peñuelas, seu engajamento estético com a vanguarda ultraísta com o nome de Luciano de San Saor, o papel nas greves da  Compañía Telefónica, suas críticas ao machismo estrutural dentro movimiento libertário,  as atividades militantes durante a guerra e a revolução, o exílio na França e o ostracismo na Espanha franquista, me revelaram a história de uma mulher extremamente moderna e inovadora, que estava muito à frente de seu tempo.  O caráter disperso e fragmentado da documentação – o que reflete um pouco a vida da própria Lucía – me levou a uma busca frenética junto a bibliotecas físicas e digitais do Brasil, Espanha, França, Argentina, Suécia e Holanda para encontrar suas poesias, contos, ensaios, crônicas e reportagens. Durante esse caminho, também conheci outras pessoas – investigadores, militantes e familiares – interessados em Lucía que muito me ajudaram. Além de Juan Felipe, devo mencionar Helena Calvillo Samada, Viki Creado, Enea Martirena Gellabert, Margareth Rago, Maria Clara Biajoli, Margherita Bernard, Helena Andrés Granel e Martha Ackelsberg, que me indicaram arquivos, facilitaram fontes e me deram detalhes preciosos de sua trajetória. Com uma documentação considerável em mãos, Adriano Skoda da Biblioteca Terra Livre ( Brasil) e Diego Mellado da Editorial Eleuterio ( Chile ), me convidaram para organizar um livro de Lucía, que desse a conhecer para o público latino-americano sua vida e obra. Como não conseguiríamos publicar tudo o que consegui, o restante da documentação está sendo disponibilizado aos poucos desde um grupo no Facebook que leva o nome da autora e está acessível a qualquer um que tenha perfil na referida rede social.

Qual foi o seu trabalho na edição do livro? Como foi a experiência de editar o livro  por parte de uma editora brasileira (Biblioteca Terra Livre) e outra chilena (Eleuterio)? É  uma coedição  ou são duas edições diferentes?

Além de procurar e reunir a documentação, eu organizei, traduzi e escrevi a introdução em conjunto com duas outras companheiras, aqui do Brasil, Giuliana Miguel e Michele Rotischeli, ambas militantes anarquistas. Toda esta tarefa foi maravilhosa, mas, ao mesmo tempo, muito difícil. Não imaginava que daria tanto trabalho. Mas, depois de ver o livro pronto e chegando a diferentes pessoas e lugares, que nunca tinham ouvido falar de Lucía Sánchez Saornil, Mujeres Libres, Anarco-feminismo e Revolução Espanhola fiquei com o sentimento de que tudo valeu a pena. Quanto ao restante da pergunta, bom, é um pouco dos dois… tanto a edição em português, que foi publicada em novembro de 2015, quanto a edição em castelhano que foi publicada em agosto de 2016, saíram com selo das duas editoras.

Você pode nos adiantar um pouco o conteúdo dos textos de de Lucía Sánchez Saornil?

 O livro reúne ensaios, crônicas, reportagens, documentos e cartas de Lucía que foram publicados nos seguintes periódicos da imprensa libertária: Solidaridad Obrera, Mujeres Libres, CNT, Juventud Libre, Fragua Social e Umbral, no período de 1935 até 1939, focando seu trabalho intelectual-militante junto à Mujeres Libres antes, durante e depois da Guerra e da Revolução na Espanha. Para conferir uma maior identidade à obra, optamos por aqueles textos nos quais Lucía aborda diretamente a problemática feminina nos meios anarquistas e anarcossindicalistas espanhóis da primeira metade do século XX. Aqueles textos compreendem a sua polêmica com Mariano Vásquez no periódico Solidaridad Obrera, em fins de 1935. Os outros textos  reconstituem um pouco a história da Revista e Organização, abordando a inserção de seu orgão periódico no mundo editorial libertario, a evolução organizacional das agrupações locais até se constituírem como federação nacional, bem como suas relações com outras organizações femininas, como a AMA ( Associación de Mujeres Antifascistas), e outras organizações do MLE ( Movimiento Libertario Español), como a CNT ( Confederación Nacional del Trabajo), FAI ( Federación Anarquista Iberica)  e FIJL ( Federación Iberica de las Juventudes Libertarias) . O restante dos textos se centram em escritos de Lucía  sobre a participação das milicianas na luta armada, a afirmação de uma nova moral sexual, a divisão do trabalho doméstico, a incorporação da mulher como força laboral e a necessidade de uma maior representatividade das mulheres nas diferentes instâncias do movimento libertário. E sem esquecer uma carta de sua autoria, destinada à Emma Goldman, na qual descreve as dificuldades que ela e os exilados espanhóis passam  na França após a vitória de Franco e o fim da guerra civil.

Como se desenvolveu a polêmica entre Lucía Sánchez Saornil e Mariano R. Vázquez, “Marianet”?
Nas primeiras décadas do século XX, o movimento anarquista e anarcossindicalista espanhol constitui-se num vigoroso movimento de massas, colocando-se à frente de uma série de greves, atos, motins e insurreições, com o objetivo de preparar a classe operária para o processo revolucionário que daria fim ao capitalismo e ao Estado, erigindo em seu lugar uma sociedade onde todos e todas seriam livres e iguais. Apesar de obter essa forte penetração no mundo operário, chegando a fundar sindicatos (CNT), organizações específicas (FAI), grupos juvenis (FI J L), dentre outras instituições, que contavam com milhões de trabalhadores e trabalhadoras, as questões de classe sobrepunham-se às questões de gênero de tal modo, que acabavam por aceitar e naturalizar a dupla opressão que as mulheres sofriam por parte dos homens, nos vários espaços em que estavam inseridas no movimento libertário.Com objetivo de reverter tal situação, iniciou-se uma série de campanhas nos meios anarquistas e operários, através da publicação de jornais, revistas e folhetos que buscavam esclarecer e/ou sensibilizar os e as militantes. Um dos pontos de culminância dessa campanha deu-se na publicação de uma série de cinco artigos escritos por Lucía Sánchez Saornil , sob o título genérico “A questão feminina em nossos meios”, em resposta ao artigo de Mariano Vázquez, “Mulher: fator revolucionário”, ambos publicados no periódico barcelonês Solidaridad Obrera, em fins de 1935. Nestes artigos, Lucía formula e faz avançar a ideia – que será cara à Mujeres Libres – de que a dominação de gênero a qual as mulheres estão submetidas não se confunde com a dominação de classe à qual os trabalhadores encontram-se subordinados. O reconhecimento da existência de uma questão feminina, cuja resolução prescindia dos estreitos marcos colocados pela questão social, leva a anarquista à conclusão que a emancipação feminina não ocorreria automaticamente com a emancipação de toda a sociedade, mas, sim de um movimento específico, organizado e identificado enquanto tal, que a engendrasse. Ciente, portanto, de que a “questão feminina” não poderia ser reduzida à “questão social”, ela foi, ao lado de Mercedes Comaposada e Amparo Poch y Gascón, uma das iniciadoras de Mujeres Libres, vindo a ser a principal responsável tanto pela linha editorial da Revista, quanto pela orientação política da Organização, que chegou a mobilizar cerca de vinte mil mulheres trabalhadoras na “dupla luta” pela sua emancipação de classe e de gênero durante o processo revolucionário na Espanha, ao longo de quase três anos.

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