Crime

A seguir publicamos uma resenha de Lucía Sánchez Saornil do romance Os condenados da Ilha do Diabo, de autoria da escritora estadunidense Blair Niles, que veio à luz em inglês, no ano de 1928. O texto de Niles se notabilizou à época pelas denúncias feitas à colônia penal localizada na Guiana Francesa, conhecida pelo nome de Ilha do Diabo. Para tramar sua narrativa, Niles cria personagens fictícios a partir de sujeitos reais. Assim, Michel, Felix, David, Peter, Antoine, Janisson, dentre tantos outros, são diretamente inspirados em pessoas que conheceu pessoalmente quando esteve na referida colônia penal.  Ainda que Os condenados da Ilha do Diabo tenha ganhado edições em várias línguas, a edição em português permanece pendente. A resenha de Saornil foi originalmente publicada em espanhol no periódico anarcossindicalista barcelonês  Solidaridad Obrera, de 06 de novembro de 1935. A tradução é de Thiago Lemos Silva.

Por Lucía Sánchez Saornil

“Rochefort-sur-Mer, 1. — Anuncia-se que, no dia 25 do corrente, zarpará de Saint-Martin-de-Ré [França] o cargueiro de condenados “La Martinaire”, que conduzirá 640 presidiários aos terríveis presídios da Guiana Francesa”. (De um jornal).

Para muitos será apenas um telegrama a mais perdido na selva dos telegramas; mas em mim causou arrepios, e o aterrorizante livro de Blair Niles abriu outra vez suas páginas dolorosas e atormentadas diante de meus olhos.

Blair Niles é uma mulher – escrevemos assim, porque dispensa adjetivos –  que quis “jogar um raio de luz sobre os lugares obscuros da nossa civilização”. Faz tempo que lemos seu livro Os condenados da Ilha do Diabo  – o indício acusador mais enérgico levantado contra a civilização atual – e, quando o acaso ou o indício nos traz à memória, voltamos a sentir, não sabemos onde, aquela mesma dor que nos devastou ao percorrer suas páginas.

Mais uma vez ainda…, ainda, “La Martinaire”, cruza o Atlântico para expelir em terras equatoriais os dejetos da “grande democracia”. É o detrito, a fossa, o pus que o esplendor e a glória das Repúblicas segregam.

“Para a latrina do cárcere flutuante, não nascerão sois de redenção; tudo nela  é arrastado pelas águas escuras. Félix olhava [ a briga de David e Peter ] de modo pálido e espantado. Sabia que lutavam pela posse de seu corpo, e, com os nervos exaltados, via a vitória passar de Peter a David, e depois voltar a Peter”. 

Os  caminhos da Guiana são fáceis e acessíveis.

“— Eu estava na casa de um príncipe russo. Era seu serviçal. Este príncipe viveu muitos anos na França.

Por isso, a Revolução [Russa] não o afetou. Ele tinha tudo: dinheiro e honras. E nunca ganhou um centavo com seu trabalho.

Parecia que eu tinha nascido para a vida suntuosa que aquele homem levava. Me agradava tudo aquilo que o rodeava: a prata, os vinhos vermelhos  e dourados; o cheiro das flores nos quartos; os tapetes macios…

O príncipe tinha tudo isso, e eu sabia que ele nunca havia trabalhado para tanto. Minha maneira de conseguir um pouco do que ele possuía foi mais honrada. A dele era graças ao sangue e a exploração dos pobres” [Michel].

“— Bom; mas, você [Michel] está aqui, e suponho que ele ainda seja um príncipe” [Antoine].

Como se vê, é possível ir para a Guiana simplesmente por não ser príncipe.

E, aqui, a Guiana não são as selvas equatoriais com altas temperaturas, os exuberantes manguezais; não são os rios brilhantes e calmos. É o “Campo de transporte”, é o presídio aniquilador, onde o detrito se resseca e apodrece, condição indispensável para que floresça o esplendor das repúblicas, assim como certas espécies de fungos raros que requerem cultivo a base de esterco. 

“No dia 25 do corrente, zarpará de Saint-Martin-de-Ré o cargueiro de condenados “La Martinaire…” Por detrás do lacônico e breve telegrama, se esconde o maior crime de todos os tempos. Os martírios persas eram a besta ainda não domada; a inquisição era o fanatismo, um estado patológico, uma psicose. A Guiana é algo mais terrível e mais monstruoso: é o mal da nossa civilização, é a indiferença; a secura de coração; o egoísmo.

Todos os crimes da história; todos os espantos da guerra: os crânios rachados pela culatas dos fuzis, as carnes despedaçadas pelas bocas de canhão, as vísceras perfuradas pelos facões  são menos espantosos que a Guiana do século XX.

“Você [Michel] me vê caído aqui, pensando; pensando, até que me canso de pensar…. Então, eu durmo. E sempre parece que estou a ponto de compreender. Algo dentro de mim, me diz: tente um pouco mais, que você consegue. Se eu pudesse compreender, acredito que me resignaria; mas sempre chego a algum lugar que se torna escuro e já não posso seguir adiante” [Jannsion].

Blair Niles fez descobertas perigosas:

“Muitas vezes, olho para esta mão que pegou o martelo e digo: “não é verdade, não pode ser verdade que eu possa ter feito uma coisa semelhante”. Não, não somos diferentes das demais pessoas. Não mais diferentes que seus corpos. Tire delas o que tem, o que fizeram, e olhe quem ela são. Isso é o importante. Agora, eu vejo o que fiz, poderia ter acontecido com qualquer um.  Somente um segundo foi o suficiente para transformar um ser humano honrado em um assassino” [Jannison].

Com efeito, o livro de Blair Niles jogou um raio de luz sobre nossa civilização e desvelou horrores. Mesmo assim, o mundo não se comoveu. A raiz da publicação [de Os condenados da Ilha do Diabo], se falou na França em suprimir os presídios da Guiana; mas, ainda, outra vez “La Martinaire” cruzará o Atlântico. O mundo [burguês] sabe que é condição indispensável para sua vida que existam Guianas, muitas Guianas – todos os presídios tem algo de Guiana – e ante às Blair Niles encolhem os ombros e seguem enchendo as latrinas flutuantes.

É verdade que o mundo perdeu o coração nos longos subterrâneos blindados que perfuram o subsolo das cidades. Mas, pelo subsolo também correm os esgotos, e dos esgotos, do mais fundo de todos, está nascendo um coração novo para o mundo. Nas suas batidas poderosas, fundir-se-ão todas as Guianas.

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