As canções de Bilitis

A seguir o Patos à Esquerda  publica a resenha de Amparo Poch y Gascón do livro “As canções de Bilitis”, de Pierre Louys. O livro narra a história de Bilitis, uma personagem grega que conta suas aventuras amorosas com diferentes homens e mulheres por meio de poemas em prosa. “As canções de Bilitis” foi publicado originalmente em francês, no ano de 1894, pela editora Charpentier & Fasquelle e ganhou uma edição em português apenas em 1984, pela editora Max Limonad. Na resenha de Gascón, publicada em Cenit, Toulouse, n. 54,  1964,  a autora destaca a importância  política da expressão sexual para o desenvolvimento das mulheres enquanto seres humanos integrais. A tradução é de Thiago Lemos Silva. 

Por Amparo Poch y Gascón

Com esse título, Pierre Louys escreveu um livro simples e encantador, que distribui descanso, naturalidade terrena e gozo íntimo. Quero acreditar fervorosamente na poeta, filha de pai grego e de mãe fenícia, na verdade de sua carne sincera, jubilosa e amante; nessa delicadeza instintiva com que cessa de cantar, as vezes deixando episódios sem desfecho algum. 

Pierre Louys dedica o livro – respeitosamente, diz – às jovens da sociedade futura. Eu espero, talvez sem razão, que na sociedade futura Bilitis possa ter um grande número de amigos que a compreendam e a amem através dos séculos.

Porque, na sociedade atual, suas canções deliciosas não podem, senão raramente, encontrar o eco e o comentário merecidos. Existe uma diferença incalculável entre a época de Bilitis, na qual o amor era santo e natural em qualquer uma de suas manifestações, e a nossa, na qual o amor é regulamentado, ou dever, ou zombaria, ou obscenidade, em virtude da introdução de um elemento social num assunto pessoal e privado.

A infância e a adolescência de Bilitis compreendem quarenta e seis pequenos poemas, cada qual mais bonito. O que mais choca o ser humano atual [ nas Canções de Bilitis]  é a naturalidade com a qual as coisas são ditas, e a exatidão simples das descrições. “A natureza não tem moral”, escreveu Rémy de Gourmont em um de seus livros; e as canções da primeira parte intitulada “Bucólicas em Pamphilia”, são a própria natureza aceita com um gozo ingênuo.

Tudo nessa natureza que se oferece é amável; Bilitis cuida, ao partir depois “de uma chuva fina que molhou todas as coisas”, para  não machucar os besouros que   atravessam o caminho no meio da lama ou para não espantar o lagarto dourado que se estira ao sol. 

Com a mesma naturalidade  que se banha sozinha “no rio do bosque” e  que, em companhia de outras jovens de “ cabelo violeta”, dança sobre a grama macia, estabelece comparações de sua beleza púbere com a de suas amigas. Os primeiros desejos inspiraram poemas preciosos, como “A amiga casada”, “As confidências”, “Oferenda à Deusa”, “ A amiga complacente”. 

Bilitis canta seu primeiro amor, Lykas, um jovem pastor – pobre, diz ela – que sua mãe não quer como pretendente. A poeta, reclusa pelo mal tempo no gineceu, promete à roca com a qual fia, que será ele quem a tomará no dia de seu casamento ou esse dia nunca chegará.

E esse dia chega, depois de ternuras delicadas descritas em “A cabeleira” e “A taça”.

O dia do casamento de Bilitis é, como tudo nela, aceitação jubilosa da marcha natural das coisas. Ela se sente presa à terra, formando parte do cego mecanismo universal. O casamento de Bilitis foi no meio do bosque, sem que ela olhasse para  a terra ou para as árvores, apenas para a luz dos olhos amantes; sem que a ação pudesse transcender socialmente, transformando as coisas em obscenidade. Tudo é pura inocência, candura inimitável, inclusive quando diz:

“Meu amor, me toma como eu sou; sem vestidos, nem joias, nem sapatos. Eis aqui Bilitis, só Bilitis. Toma-me como minha mãe me fez durante uma distante noite de amor”.

O amor, comportando sempre o testemunho dos sentidos, não pode ser eterno. O de  Bilitis cai , finalmente, em desgraça e então ela deixa de cantá-lo. Cinquenta e duas  canções compõem a segunda parte que leva por título “Elegias em Mytilena”, mais belas e sinceras do que as canções de Pamphilia. As elegias cantam o amor lésbico, a homossexualidade feminina, não como curiosidade viciada, nem como verdadeira patologia, capaz de levar aos mesmos excessos e tragédias que a paixão heterossexual. 

Em sua obra “O segundo sexo”, a filósofa existencialista Simone de Beauvoir  traz uma explicação da homossexualidade feminina, que é idêntica a de Bilitis em “Os conselhos”, quando [pela boca de ] Skyllikhmas diz:

“Essas moças te amam. Elas te ensinarão o que você ignora: o mel das carícias femininas”.

“O homem é violento e preguiçoso. Tem o peitoral achatado, a pele áspera, os cabelos ralos, os braços peludos. Mas, as mulheres são todas belas”.

É a mesma tese de Simone de Beauvoir: a mulher ama as coisas belas e delicadas que lhe ensinaram, desde pequena, por meio do contato delicioso com as sedas e os veludos. Nada  do que aprendeu a gostar se encontra no universo masculino, onde as formas  são angulares, os movimentos são  bruscos e os contatos são  ásperos. Naturalmente, nada disso tem a ver com nenhum tipo de moral, esse produto artificial das coletividades humanas. Não tenho outro remédio senão lembrar a amoralidade original da natureza ao tratar de compreender a beleza do amor de Bilitis com a sua amiga Mnasidika, a quem diz:

“Eu beijarei as asas negras  da sua nuca de uma ponta a outra. Oh, doce pássaro, pomba acessa  cujo coração salta em minha mão”.

É claro que Pierre Louys não pode dedicar seu livro à sociedade atual, onde as tendências homossexuais, mesmo as mais sinceras e inofensivas, são consideradas como uma coisa vergonhosa e culpável, chamando-as de “perversões” em um sentido atroz e mal da palavra.

Entretanto, nada nos poemas de Bilitis respira culpabilidade, vício e perversidade de nenhum tipo. As elegias são lidas sem o menor alarme, e esta é a graça singular do livro e da época que retrata: a candura e a inocência de tudo: descrições, sentimentos, instintos. O amor lésbico diz seu nome sem orgulho, mas, também sem medo. Pobre Bilitis, natureza do vento, sensível a todas as influências do mundo pagão e delicioso. Agora, aqueles que se crêem mais livres teriam lhe depreciado, e, talvez, pensariam que tinham direito de suprimir sua existência, de deixar a fogueira da sua carne insensível e fria, como se a beleza e o amor fossem tão fáceis de julgar.  

Ao lado das “Elegias”, os cinquenta e sete “Epigramas na Ilha do Chipre”, mesmo sendo  belos, tem menor paixão; aqui a poeta retorna para o amor heterossexual, à “normalidade”, diriam muitos. Bilitis é cortesã, uma dessas cortesãs que a antiguidade respeitava e enchia de considerações, ao invés de se servir delas para  anulá-las à força da crueldade e do desprezo, como se faz agora. 

Então Bilitis é admirada; ela descreve uma espécie de apoteose no poema intitulado “O triunfo de Bilitis”. Sobre uma carruagem, [a poeta] dá um volta, nua e lisonjeada, por toda a cidade

“Estava deitada, com as mãos sob o pescoço; meus pés estavam vestidos de ouro, e meu corpo se estendia  suavemente sobre o fundo dos meus cabelos mornos  misturados às pétalas frescas”.

“A primavera e a carne também acabam”, diz Rubén Darío em um de seus poemas. E, efetivamente, Bilitis termina sua vida com seu amor, posto que ambas as coisas se identificam nela. Bilitis escreve “O último amante”, no qual  a lembrança de Mnasidikia, seu grande amor, sua amiga, ainda a toma de assalto com uma força extraordinária.

Três epitáfios terminam o belo livro de Pierre Louys, o qual eu, pessoalmente, devo momentos de bem-estar indefinível. Livro que é alento da terra, clamor universal, rebeldia e vitória do amor, por si só, e contra todos os artifícios estúpidos e limitados dos homens.

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