Apelo à consciência dos Camaradas

Todos os dias, os noticiários divulgam que as obrigações, tarefas e cuidados com terceiros dobraram e recaíram pesadamente sobre os ombros das mulheres, esses seres que a sociedade separou e selecionou para realizar esse trabalho quase escravo e não remunerado. Estima-se que 10,8 trilhões de dólares anuais, sejam gerados a partir do trabalho não remunerado, ou seja, o capital ganha com aquele trabalho essencial ao mundo do trabalho sem desembolsar um tostão.

Num mundo que pouco avança contra as diversas desigualdades e desnivelamentos entre as pessoas, a pandemia do Covid-19 se mostrou extremamente violenta para com as mulheres. Nada de surpresas, uma vez que a sociedade capitalista nunca priorizou nossas existências, demandas e anseios. Nesse sentido, a crise sistêmica desencadeada pelo novo Coronavírus veio apenas potencializar  os efeitos de uma lógica excludente que já existia.

Há uma tendência mística, quase messiânica, das pessoas suporem que coisas ruins acontecem para que as boas possam surgir através delas. Bom, podemos observar a partir de outros momentos históricos, que as coisas não operam bem assim. Por exemplo, quando e onde a peste bubônica chegou, o mundo não ficou  melhor, as pessoas não se tornaram mais companheiras nem buscaram corrigir seus erros. As coisas mudam, de fato, mas isso pressupõe progresso. Esse entendimento deve ser abordado à parte, em outro texto.

A questão, meus camaradas,  é que essa profecia de irmandade “pós” pandemia é  a coisa mais pífia e irresponsável que a humanidade poderia anunciar. De antemão,  ela já começa errada, pois desconsidera que   as desigualdades entre homens e mulheres são anteriores à própria pandemia. Aqui não pretendo encher vocês com gráficos e números alarmantes, até porque nos tornamos estéreis e insensíveis a estatísticas, mas quem queira ter uma visão geral do quadro do aumento da desigualdade de gênero na pandemias acesse: (http://www.generonumero.media/retrospectiva-2020/)

Todos os dias, os noticiários divulgam que as obrigações, tarefas e cuidados com terceiros dobraram e recaíram pesadamente sobre os ombros das mulheres, esses seres que a sociedade separou e selecionou para realizar  esse trabalho quase escravo e não remunerado. Estima-se que 10,8 trilhões de dólares anuais, sejam gerados a partir do trabalho não remunerado, ou seja, o capital ganha com aquele trabalho essencial ao mundo do trabalho sem desembolsar um tostão.  Ele  alimenta ferozmente um mundo de desigualdades  sociais para manutenção das mulheres no espaço privado.  Apesar de estarem no mundo do trabalho produtivo  (ocupando funções ainda de extensão doméstica, como cuidadoras, cozinheiras, faxineiras, etc.), continuam exercendo o trabalho reprodutivo , no âmbito  doméstico.

Estamos às  voltas com esse assunto,  no qual evoca-se constantemente a igualdade de direitos, leis bonitinhas que a moral e a ética patriarcais dificilmente se sentirão obrigadas a cumprir. Portanto eu volto o debate para o início da problemática, abordando os camaradas  que nos protestos  adoram bater no peito para dizer  que são “feministas”, mas que passam pela louça suja e não tem o ímpeto sequer de se prontificar a lavar; que veem seus filhos empacados diante de uma lição da escola e ignoram. Trata-se de uma problemática com a qual eu tenho gasto muita saliva com os camaradas, que volta e meia  julgam meu discurso como separatista. Assim como muitos camaradas soviéticos, no contexto da Revolução Russa, diziam às  suas companheiras de lutas que uma vez livre o proletariado, livre as mulheres estariam, os camaradas de hoje não percebem a reprodução da lógica burguesa  dentro das suas próprias casas. Explorando o trabalho doméstico das suas filhas, esposas, mães ou de  quaisquer outras mulheres com as quais se divide o “seio familiar”, vocês se convertem à imagem e semelhança do que tanto criticam. É  hora também de dizer que esse  discurso não divide a luta causando rixas desnecessárias entre homens e mulheres.  Tal qual os camaradas anarquistas durante   Revolução Espanhola  viam com maus olhos o trabalho de qualificação, de ensino e de luta, efetuado pelo grupo de “ Mujeres Libres”, vejo hoje muitos camaradas negligenciar a necessidade da auto-organização feminina simplesmente para manterem sua hegemonia nos grupos mistos. 

Há  um fenômeno ocorrendo por sequelas da pandemia que é a morte materna pela Covid-19. Diante desse fato, homens se veem experimentando o luto,  formando grupos  em redes sociais para falar dessa perda e desse novo lugar. Vejam só! Diante da catástrofe  simbolizada pela perda da esposa, os homens estão se descobrindo pais, sim,  eles não se aperceberam disso diante da gravidez que evoluiu diante dos seus olhos, e talvez não o percebessem  se a morte não tivesse levado do “seio familiar” a funcionária incumbida da manutenção da sobrevivência de um recém-nascido.

Muito já disse repito sempre aos camaradas que a paternidade é o começo do pensar o que é parternar, ou seja, o que é ser pai. Trata-se de um movimento análogo ao que as mulheres já levantam há muito TEMPO sobre seus respectivos pontos com relação à maternidade. Há um esforço, é claro, de alguns homens em trazer a discussão para um campo mais amplo, em que refletem sobre suas experiências de cuidado no dia a dia como, por exemplo,  a inexistência de fraldários para pais trocarem seus bebês, as dificuldades em apresentar suas reais emoções frentes aos filhos, como conciliar vida profissional e doméstica. Mas, via de regra, os núcleos masculinos são estéreis para conversas sobre cuidados com os filhos. Triste, mas há homens que sequer sabem o ano escolar de seus filhos! E não distante disso, essa esterilidade dos homens diante dos próprios filhos, no meu ponto de reflexão, tem a ver com a facilidade como se efetuam abusos dos mais diversos.

O que eu quero apelar para vocês camaradas, é que já passou do ponto de vocês tomarem as vassouras para varrer a casa , pegarem  as buchas para lavar a louça  e trazerem  as crianças no colo,  sem que alguém implore para isso. A  mudança começa na casa, a  unidade celular da sociedade, e paralelamente se alastra para outras instituições que compõem o corpo social. Não há como romper uma bolha se você não entende como ela funciona. Afinal de contas, como exigir que a classe trabalhadora tenha ciência da dominação e da exploração burguesa, se você não olha para o modo como a reproduz  com quem divide a vida e o teto?

Não é a profecia do fim do mundo que muda a sociedade, pelo contrário. Diante  dessa, as pessoas só se acovardam ainda mais. É preciso que nós destruamos esse mundo na nossa base, para construir um mundo novo.

Luana Rodrigues

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