A precarização do trabalho docente em tempos de pandemia: exceção ou regra?

A união de educadores, educandos e família sempre foi tema nos círculos acadêmicos, mas essa discussão não está fortemente presente na sociedade em geral. Senhores pais ou responsáveis, vocês conhecem os professores de seus filhos? Alunos, vocês sentem admiração pelo seu professor? Diretores, vocês conhecem a luta de cada docente na escola de sua gestão? Deixo aqui essa série de questionamentos para se repensar a educação como processo de emancipação intelectual. É tempo de ação! Trabalhadores da educação de todo país, estudantes e familiares, uni-vos!

Por Rodrigo de Freitas Silva

Turmas cada vez mais cheias, professores cada vez mais sobrecarregados e escolas operando com recursos mínimos fazem parte da realidade educacional de Minas Gerais já há algumas boas décadas.

É nesse contexto já deteriorado que, em 5 de fevereiro de 2020, a categoria de profissionais da educação decidiu coletivamente, na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), entrar em greve a partir do dia 11 daquele mesmo mês. Entre as principais reivindicações estavam o pagamento do piso salarial e a defesa do emprego no ensino público.


O Estado se manteve irredutível quanto às pautas da greve e ela se estendeu por mais tempo. Por volta de 15 de março, o Estado iniciou o enfrentamento à pandemia com uma paralisação de três dias para o Ensino público, através de decreto, para elaboração de medidas adicionais de combate ao vírus. Por fim, a deliberação do comitê extraordinário covid-19 nº 16, de 20 de março de 2020, suspendeu por tempo indeterminado as atividades de ensino in loco devido ao estado de calamidade pública. Um período de grandes incertezas surgiu na educação e a luta pelos direitos dos professores cedeu perante a preocupação com a saúde pública.

Não tardou para que o modelo remoto fosse implementado e, com ele, novas dificuldades entraram no cotidiano dos professores. O trabalho, agora, se estendeu. Além da preocupação com o ensino, há também a preocupação com a burocracia, que se traduziu numa infinidade de formulários a serem preenchidos para que o Estado comprovasse que estávamos realmente trabalhando. Essa atitude tornou o trabalho excessivamente técnico e com pouco espaço para relações de ensino-aprendizagem.

Grupos de WhatsApp se tornaram um meio direto de comunicação entre a comunidade escolar. A partir daí, horários de trabalho se tornaram flexíveis. E-mails e comunicações emergenciais, aos fins de semana e às altas horas da noite, exigindo uma quantidade de retrabalho extremamente desgastante, tornaram-se regra. Enquanto isso, alunos seguiam sem direcionamento, sem condições técnicas de acompanhar as aulas. Além disso, muitos pais estavam nos atacando abertamente por esse estado das coisas.

As redes privadas de Ensino também não ficaram atrás. A adoção de plataformas virtuais, acompanhada de exigência de aulas cada vez mais chamativas, converteu-se em um imbróglio para sanar a desmotivação crescente por parte dos discentes. Lives, aulões e discussões gravadas tornam o professor uma figura cada vez mais pública. Tudo isso sem a deliberação necessária entre docentes e com decisões tomadas de maneira vertical. A vida privada do professor pareceu se dissolver no ar e as redes sociais se tornaram um espaço para propaganda de futilidades prontas para serem consumidas.

Os já tão perseguidos resultados se tornaram prioridade. Agora o educador também é responsável por resolver um problema de displicência crescente durante a pandemia e tem que garantir com que alunos se apresentem às aulas virtuais e tirem notas altas. Isso o leva então a assumir mais funções, o que demanda mais tempo de trabalho para além das aulas. Tudo isso com zero investimento por parte das instituições de ensino. Assim, a percepção do professor enquanto mediador do conhecimento desaparece do horizonte e é substituída pela do gestor, responsável direto por resultados.

Segundo uma pesquisa divulgada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Brasil é um país campeão em violência contra professores. Todo professor já passou por algum constrangimento por parte de alunos, pais e diretores. Parece existir na sociedade brasileira um ódio velado aos que se dedicam à educação. Esse tipo de comportamento foi elevado durante o período da pandemia, em que pais e Estado nos acusam de não querer trabalhar, de sermos “vagabundos” que fazem greve todo ano e “mamam nas tetas” do Estado. A sociedade brasileira, ao meu ver, percebeu momentaneamente a necessidade da escola e do professor, mas, por um terrível paradoxo isso teve efeito contrário! Somos ainda mais exigidos e mais hostilizados.

O que esse cenário de calamidade na saúde pública nos mostrou é que os problemas da educação são muito mais antigos e não recebem lugar de destaque nos governos existentes aqui na periferia do capitalismo. As escolas públicas são tidas como depósitos de crianças, enquanto as escolas privadas são voltadas para direcionamento a profissões consideradas “de prestígio” como Engenharias, Direito e Medicina. Ambas não vêm contribuindo para a formação de pessoas com senso crítico e dispostas a mudar a situação de ineficácia e desigualdade do sistema.


Chegou a hora do espaço de educação ser verdadeiramente democratizado. A escola deve ser um espaço de trocas e de humanização dos sujeitos sociais. A união de educadores, educandos e família sempre foi tema nos círculos acadêmicos, mas essa discussão não está fortemente presente na sociedade em geral.

Senhores pais ou responsáveis, vocês conhecem os professores de seus filhos? Alunos, vocês sentem admiração pelo seu professor? Diretores, vocês conhecem a luta de cada docente na escola de sua gestão? Deixo aqui essa série de questionamentos para se repensar a educação como processo de emancipação intelectual. É tempo de ação! Trabalhadores da educação de todo país, estudantes e familiares, uni-vos!

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