A inércia mata: um balanço do 29/05

Reflexão sobre as movimentações em Patos de Minas

É bastante comum, nas aulas de história, a pergunta “como é que eles deixaram que isso acontecesse?” Ela costuma aparecer em aulas sobre nazifascismo, genocídios, escravidão, ditadura. Certamente, quando ouvimos o número de mortos pela política de apoio ao coronavírus feita pelo governo Bolsonaro, essa pergunta nos incomoda. Como pode ser possível estar acontecendo tudo isso? Como suportar que ninguém faça nada para evitar que essa máquina de moer gente, o Estado burguês operado por Bolsonaro, continue a nos matar como se fôssemos, todos nós, absolutamente descartáveis?

Hoje, 29 de maio de 2021, um conjunto de patenses demonstrou não aguentar mais assistir calados(as) à desgraça que se abate sobre nós. Respondendo a um chamado local do Movimento de Organização de Base (MOB) e do Coletivo Mada, dezenas se reuniram no Coreto da cidade. Entoaram palavras de ordem, demonstraram uma muito justificável pressa pelas vacinas, conversaram, viram que a ira popular contra o governo pulsa firme. O MOB distribuiu alguns panfletos pelo centro da cidade e muitos cartazes foram feitos no local.

Sempre que ocorre algum ato político de esquerda em Patos de Minas, espera-se poucas pessoas, mas a quantidade de manifestantes surpreendeu-nos. Na verdade, constata-se a veracidade dos cartazes que diziam “Se o povo vai à rua na pandemia, é porque o governo é pior que o vírus”. Na verdade, a imensa maioria dos(as) trabalhadores(as) já é obrigada a se expor ao risco de ser infectada pelo vírus pela necessidade de lutar pela sobrevivência vendendo sua força de trabalho. Basta que pensemos nos ônibus cheios e na inviabilidade de se proteger bem trabalhando no comércio, por exemplo, para que as acusações de incoerência se esfacelem.

Claro que um ato coletivo, ainda que ao ar livre, é perigoso. Mas é menos perigoso do que o que já estamos passando rotineiramente. Nenhum dos picos nos gráficos de números de infectados e mortos foi determinado por manifestações de esquerda. Pelo contrário: a quase total ausência de manifestações que pressionassem o governo deu ampla margem para que Bolsonaro fizesse inúmeros absurdos, desde negar e ignorar contratos de vacinas até incentivar abertamente aglomerações sem o menor cuidado. Além disso, o silêncio geral da oposição ao governo também sinalizou para a população que cada indivíduo está entregue à própria sorte (como querem o liberalismo e Bolsonaro), como se nenhuma organização coletiva e solidária fosse possível.

Com efeito, é exatamente a ideia de que cada um está jogado à própria sorte que explica a ausência de um “comportamento geral” solidário, que não pense só na saúde individual. Isso faz parte do individualismo que vai ficando impregnado em todos nós, na medida em que procuramos sobreviver numa “sociedade de consumo”. Se estamos em guerra contra uma doença, não podemos esquecer que também estamos em meio a uma guerra de classes. E é conveniente aos ricos que todos estejamos desprotegidos, fragmentados, desesperados por empregos que não existem.

Urge, portanto, aprendermos que política de saúde não é sinônimo de política hospitalar. Urge notarmos que calcular infectados, mortos e leitos não é suficiente. Não se resolverá o problema da pandemia no Brasil sem decretos, mas os decretos não bastam para conter o vírus. A política de saúde que queremos deve ser pautada pela justiça social. São necessários o senso de coletividade e as redes de solidariedade que permitam um enfrentamento popular ao vírus. Os atos de hoje mostram que isso é possível e nos incitam a aprofundar a construção de uma sociabilidade oposta a toda a desumanização provocada pelo capitalismo e seus capatazes.

Uns apontarão uma simetria entre protestos de esquerda e direita no contexto pandêmico. Falsa simetria: os manifestantes de hoje, ainda que eventualmente aglomerados, estavam ao ar livre, usando máscaras e todos preocupados com o risco. Cobramos vacinas, não “tratamentos” aleatórios e nocivos; discutimos as dificuldades do SUS; o pesar que é termos mais de 460 mil mortos por COVID no país e reivindicamos que a pandemia seja combatida, não incentivada. Inverta tudo isso e você terá, leitor(a), uma descrição do que são os protestos bolsonaristas. Hoje a classe trabalhadora se manifestou porque quer vida digna, saúde e justiça social. Os bolsonaristas se manifestam para enaltecer o ego de um velho engravatado que não hesita em matar (por ação e omissão) para se manter no poder. 

Outros críticos dirão que é vandalismo pregar cartazes no Coreto. A isso respondemos que vandalismo é, na verdade, a destruição causada pelo governo nas instituições do país. Nunca o Brasil esteve tão arrasado, desacreditado internacionalmente e incapaz de atender às necessidades básicas dos brasileiros. Nesse sentido, vândalos, portanto, são Bolsonaro e seus poucos e tumultuários comparsas.

Quando a memória destes dias mórbidos for evocada no futuro, certamente iremos desejar ter feito mais e mais para conter o genocídio, a fome, o desemprego e o desamparo. Hoje, uma mensagem foi ecoada nas ruas de todo o país: não somos coniventes com o projeto de Brasil que está sendo executado por Bolsonaro. A inércia mata, viver é lutar e tomar partido. 

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