A morte do texto escrito

Uma reflexão sobre escrever e pensar

Tenho me perguntado, caro/a leitor/a, se há algo a ser dito, em meio a tanta informação e desinformação. É sabida nossa posição quanto a diversos assuntos. Sabemos não poder confiar na democracia burguesa. Conhecemos as limitações e contradições do governo frouxo da esquerda liberal lulista. Já reiteramos diversas vezes nossas análises quanto às tendências de mercantilização da vida sob o neoliberalismo. Poderíamos alongar essa lista com a centena de textos disponíveis neste site. Contudo, estando arrebatados pela sensação de estafa, é preciso reconhecer que nossas intervenções parecem previsíveis o suficiente para que não precisem ser escritas. 

Por que, então, insistir nas modalidades de artigos, crônicas, resenhas, ensaios – todas dependentes de uma tecelagem artesanal das palavras e, mais ainda, de um raro lapso de tempo em que a atenção do leitor é fisgada? É de se questionar se não chegamos a um niilismo quanto ao discurso, em que todas as palavras se equivalem… e não valem nada! Será isso? Haverá ainda comunicação? O que seria comunicação, numa época em que ela vem sendo substituída pelos modelos de linguagem? 

Escrever para quem?

Tudo indica que vivemos uma crise projetada1Como dizia o Darcy Ribeiro, a crise da educação não é crise, mas projeto. do letramento. Em fevereiro de 2025, o Jornal da USP reportou que “a não alfabetização saltou de 14% para 30% entre 2019 e 2023”. Imagine, então: se esses são os dados para alfabetização, qual a situação do letramento, que é uma “condição que se tem, uma vez alfabetizado, de usar a leitura e a escrita como meios de adquirir conhecimentos, cultura etc., e estes como instrumentos de aperfeiçoamento individual e social”?2Definição do Dicionário Aulete Qualquer professor da educação básica hoje pode constatar, em primeira mão, as dificuldades dos estudantes brasileiros em lidar com raciocínios básicos, conceitos e pequenas abstrações dependentes de uma organização verbal, escrita da realidade.

Distopia normalizada

Nossa era, marcada pelo alvoroço quanto ao domínio das redes sociais e do famigerado “espertofone” (o celular, supostamente inteligente), é também um tempo de “cada um por si” (atomização e individualização extremada da vida social) e de dúvidas quanto às capacidades humanas de encontrar soluções para os problemas mais mortais – o colapso ambiental, a fome, a destruição total por meio de guerras. Temos imensa dificuldade de imaginar alternativas estratégicas (de longo prazo) e táticas de ação política (de curto prazo). Arrisco dizer que essas alternativas não têm sido pensadas nas instituições de poder.

Pergunte a um governista hoje se teria como fazer algo a mais, algo mais ousado e transformador na esfera federal. Certamente ele dirá que o que era possível foi feito, que não havia condições de fazer pressão, impor debates ou demandar mais do que migalhas. Esse misto de derrotismo, postura defensiva e cinismo expõe a incapacidade de pensar além do medo e da redução de danos. Essa postura (que não é exclusividade dos governistas) nos adestra à distopia. 

Mais do que apresentar condições opressivas, caóticas e catastróficas, as distopias – literárias, cinematográficas ou reais – são marcadas pelo desespero. Trata-se de desfazer a esperança. Rompe-se a expectativa de um mundo melhor e, no lugar dela, coloca-se uma imagem inescapável de sofrimento, uma situação que não é uma condição passageira, mas um resultado irreparável e necessário da história, que figura como uma coleção de fatos mortos, de certezas sobre o que só poderia ter sido como foi.3Para Marx e Engels, em A Ideologia Alemã, ver a história como “coleção de fatos mortos” é o oposto da concepção materialista de história, na qual esta é construída pelo conflito.

Resta rir, para não chorar. Daí o desejo recorrente de transformar a distopia em entretenimento. Não se trata mais de sátira, de alerta: aprendemos a lidar com a realidade como uma tragédia encenada em atos absurdos, mas saturada de alívios cômicos. Queremos posts, reels, trends. Preferimos cantos arredondados. Usamos frases curtas. Apodrecemos (“brain rotting”) nossa capacidade de pensar, deixando que meia dúzia de bilionários colonizem nosso tempo com cassinos disfarçados de plataformas de interação; permitimos que uma entidade fantasmagórica, o “algoritmo” decida o que é melhor para nós; abrimos mão de nosso traquejo em nome da agilidade de uma IA com construções textuais genéricas e vazias; deixamos o neoliberalismo prevalecer não por ser o melhor modelo, mas por nos convencer cotidianamente de que é o único possível.

O que fazer?

Diante disso, por que não experimentar o silêncio? Por que não o prazer individual, em vez da complicada preocupação coletiva/societária? 

Essas perguntas são tentadoras, na medida em que nos exaurimos das tentativas de organização política. Não tenho resposta para elas, senão a constatação de que silenciar cansa e adoece, confinando-nos a uma menoridade humilhante: a condição de não compreender o que se passa, condição em que nossos cérebros são alienados e de que nossas almas, hipotecadas e afundadas em tristeza e melancolia, não estão sob nosso controle.

Virtude e comunicação

Espinosa dizia que o esforço por compreender é o primeiro e o único fundamento da virtude. Para o excomungado filósofo holandês, porém, a virtude (oposta, por certo, ao desânimo) não é o emplastro4“Emplastro” (ou emplasto) é um tipo de pomada medicinal que se aplica sobre a pele para aliviar dores ou tratar doenças — algo comum na medicina antiga. O personagem Brás Cubas, de Machado de Assis, inventa o chamado “Emplasto Brás Cubas”, que ele apresenta como um remédio milagroso capaz de curar a hipocondria (mania de achar que está doente). que resolve todos os nossos problemas. Ao final da quarta parte de sua Ética, ele nos alerta para a obviedade de que essa potência, a virtude humana, é “infinitamente superada pela potência das causas exteriores”5Vale lembrar a visão de Marx, sintetizada no 18 de Brumário, que indica a responsabilidade e o condicionamento das ações humanas.: “Os homens fazem a sua própria história; contudo, não a fazem de livre e espontânea vontade, pois não são eles quem escolhem as circunstâncias sob as quais ela é feita (…)”.. Assim, sua mensagem ali parece apontar para uma escolha que devemos fazer entre a virtude limitada e o pesar6Espinosa fala sobre o pesar no Breve Tratado de Deus, do Homem e de sua Felicidade, no capítulo XIV da parte II., que seria o de não podermos dizer que fizemos nosso trabalho, por não termos levado nossa potência de interpretar e transformar a realidade ao seu limite, perdendo as oportunidades históricas. Imagine-se, pois, a tristeza de ter escolhido a inércia, a passividade.

Retrato de Espinosa feito por Henrique Alves Amorim

Questionei, acima, o que significa comunicação. Sabemos que a ação comunicacional textual escrita é limitada. Ainda é, porém, algo perto de communicatio, termo latino que dá origem à ideia de comunicação e que envolve sincronia (“CO” implica simultaneidade), responsabilidade (MUNIS, significa “estar encarregado de”) e atividade (a terminação “TIO”, como em actio, cognitio, motio e scriptio, indica atividade). Daí notarmos que comunicação pressupõe a intencionalidade de romper um isolamento, bem como uma realização em comum. 

Que este texto indique que isso ainda é possível. Que ainda se conceba uma sociabilidade onde escrever seja desejável, se de modo artesanal. Que a escrita sirva para “desalienar” nossos cérebros e orientar as mudanças que queiramos fazer no mundo.

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