A seguir, publicamos o texto “Em um mundo de mulheres livres: por que não anarquizar o feminismo?” de autoria de Nadia Ledesma Prietto e Gisela Manzoni, que traz à tona uma instigante leitura de Mujeres Libres a partir de um olhar latino-americano. O referido texto faz parte de um estudo mais amplo, escrito pelas autoras para a edição argentina publicada por Cúlmine do livro Mujeres Libres: el anarquismo por la lucha de la emancipación de mujeres, de Martha Ackelsberg.
As autoras agradecem a Nicolás o convite para escrever e o acompanhamento que deu; às amigas Indi Valobra e Magui Tirabassi pela leitura atenta e amorosa e a Mabel Bellucci, por seu tempo, saberes e lembranças compartilhados nas generosas conversas que tiveram no processo de escrita, durante fevereiro-março do ano 2021.
A tradução do espanhol para o português é de Thiago Lemos Silva
Por Gisela Manzoni e Nadia Ledesma Prietto
De fato, tenho a ideia de que as feministas foram, durante muitos anos, anarquistas de modo inconsciente, tanto na teoria como na prática (Kornegger, 1975)
Mujeres Libres foi uma organização de mulheres anarcossindicalistas que se propôs a capacitar e conscientizar as mulheres para contribuir com a sua emancipação durante a Revolução e a Guerra Civil Espanhola (1936-1939). Nesse sentido, construiu e debateu com seus companheiros de tendência e com congêneres de outras. Surgiu em meados de 1936 da união de dois grupos de mulheres, o Grupo Cultural Femenino de Barcelona (1934) e Mujeres Libres de Madrid, iniciado por Amparo Poch, Lucía Sánchez Saornil e Mercedes Comaposada. Entre seus projetos, se destacam a edição de uma revista chamada Mujeres Libres (1936-1938), a criação em Barcelona da Casa da Mulher Trabalhadora e a Casa de Maternidade e de Institutos Mujeres Libres em diferentes localidades como Madrid e Valência.
Nesses espaços, capacitaram as mulheres em diferentes profissões exigidas pelo contexto de guerra, realizaram cursos de alfabetização e levaram adiante diferentes atividades de formação cultural. A organização se estendeu ao longo da Espanha e, em agosto de 1937, constituiu-se a Federação Nacional de Mujeres Libres, que chegou a contar com mais de 20 mil afiliadas.
O livro de Martha Ackelsberg, Mujeres Libres: anarquismo y la lucha por la emancipación de las mujeres, analisa a experiência da referida organização. Tenta compreender como e porque as anarcossindicalistas precisaram de uma organização própria, como foi recebida essa necessidade nas organizações anarquistas que integravam – a Confederación Nacional del Trabajo (CNT), a Federación Ibérica Anarquista (FAI) e a Federación Ibérica de Juventudes Libertarias (FIJL) — e como compreenderam a relação entre sua organização e o projeto libertário.
A edição que estamos apresentando é a primeira versão em espanhol publicada a partir desta região da América. Desde sua primeira publicação em inglês no ano de 1991,[1] a obra foi traduzida para o espanhol em 1999[2] e reeditada várias vezes até o ano de 2017 pela Editora Virus da Espanha. Também foi publicada no Brasil pela Editora Elefante, no ano de 2019.[3] Quer dizer, ao longo do tempo, o alcance da obra se multiplicou e o interesse se renova a partir das lutas que continuam acontecendo e que envolvem as mulheres e os movimentos feministas. De diferentes formas, a experiência de Mujeres Libres continua despertando curiosidade mesmo nos espaços anarquistas. Do mesmo modo, nos últimos anos, distintas pesquisas se interessaram pelo tema e trouxeram novos conhecimentos e reflexões sobre o desenvolvimento do anarquismo na região, ampliando as periodizações clássicas sobre o tema e abrindo perspectivas de análise que diversificam os espaços, sujeitos e dimensões. Entretanto, dentro desse grande campo de estudos sobre anarquismo, as abordagens a partir de uma perspectiva de gênero ocupam, ainda, um lugar limitado. Para tanto, a reedição deste livro é extremamente interessante para provocar perguntas que considerem a interseccionalidade entre os vetores da opressão. Não nos esqueçamos que, a partir da perspectiva bakuninista, já se havia apontado que a igualdade em termos de gênero era parte da emancipação social e individual. [4]
A Revolução e a Guerra Civil Espanhola figuram como grandes marcos na história da luta e resistência políticas. E ainda que, indubitavelmente, o fenômeno e as experiências acumuladas naqueles anos e, também posteriormente, mereçam o lugar central que ocupam no imaginário e no sentir de militâncias diversas, existe ao seu redor uma aura de fantasia que impede uma reflexão proveitosa.
Esse cenário revolucionário, evocado a partir de uma multiplicidade de lugares, também é central na hora de construir um passado com marcos louváveis em função do papel e da participação das mulheres. As medidas que o governo republicano tomou sobre os direitos das espanholas, a participação das mulheres nele, o protagonismo que tiveram nas diferentes organizações políticas, sindicais, sociais e sua participação nas milícias e nas frentes de batalha são referências frequentes quando rememoramos experiências femininas do passado que conseguiram alterar o regime patriarcal. Essas vivências apontaram para a existência de opressões impostas não só de “fora”: da burguesia, da igreja ou do Estado. Desse modo, experiências como as de Mujeres Libres aparecem em nossa evocação do passado como aqueles momentos em que foram desveladas as múltiplas opressões: da Federação, das reuniões políticas, da casa, da cama e do companheiro.
Longe de tirar a importância desse processo, único na primeira metade do século XX, marcante em suas grandezas e pequenezas, acreditamos que muitos desses cenários foram fortemente idealizados pela disciplina histórica. Consideramos que isso constitui um problema não só porque nos torna pessoas acríticas com um passado que reivindicamos, mas porque também nos empurra para visões simplistas, que podem “forçar” a capacidade de agência e correr o risco de converter essas trajetórias em excepcionais, isoladas e, desse modo, despolitizá-las. Muitas vezes, os exercícios que visibilizam as mulheres, as apresentam como uma anomalia ou exceção, sem reconhecer o projeto político e social em que estavam inscritas. Isso é particularmente desse modo no caso das mulheres anarquistas, já que também é atribuído frequentemente ao agir ácrata esses olhares que desacreditam sua projeção.
O agir de Mujeres Libres, assim como outros percursos de militantes anarquistas, foi recolhido pela história dos feminismos em um processo de busca identitária. Feminismos que, como todo movimento político-social, buscam no passado vivências que cimentem sua existência. Nesse sentido, com seu belo e eloquente nome, Mujeres Libres aparece, muitas vezes, como pedra fundante de práticas de mulheres empoderadas, encarnando a revolução social e sexual.
Obras como a que apresentamos aqui, com suas análises minuciosas e sua riqueza documental, são centrais para problematizar e desarmar o filantropismo com o qual estamos acostumados a olhar este passado. O trabalho de Martha Ackelsberg nos devolve as vozes das protagonistas de Mujeres Libres, as coloca em contexto, e evidencia as próprias contradições que tiveram como mulheres e como militantes anarquistas, seus debates e seus conflitos. Tensões que, em muitos casos, só puderam ser percebidas pelas protagonistas após a mediação do tempo. As entrevistas que fundamentam a pesquisa deixam entrever os modos pelos quais as ex-militantes de Mujeres Libres lembram aquelas experiências; ressignificações do passado atravessadas por amores, alegrias, frustrações e dores.[5]
No livro são detalhados lugares, momentos e sensações, não apenas das entrevistadas, mas também da autora. Principalmente, é notável a maneira com a qual Martha reconstrói as redes e os contatos que lhe permitiram encontrar-se com as integrantes da organização para apontar, nas diferentes apresentações, as características comuns que compartilhavam aquelas Mujeres Libres: eram jovens, trabalhadoras, militantes anarcossindicalistas que participavam na CNT, na FAI ou na FIJL e que compartilhavam uma necessidade de organizar-se por fora do sindicato em função de gênero.
Este livro é fundamental para compreendê-las em seu contexto, para recordá-las sem pedir-lhes que sejam o que não foram, e, fundamentalmente, para poder reivindicá-las sem desaanarquizá-las. Dizemos isso porque, nos últimos tempos, particularmente a partir dos movimentos de mulheres e feministas, reivindicam-se diferentes mulheres anarquistas mas, como mencionamos previamente, despolitizando-as e reconhecendo-as apenas como a vanguarda do feminismo ou como feministas. Ao acrescentá-las às lutas do presente, acriticamente, recriam um perigoso anacronismo.
A força com a qual Mujeres Libres atravessou o tempo se faz presente nas múltiplas evocações desse nome em diferentes projetos. Durante as décadas de 1960 e 1970, primeiro a partir da Inglaterra e depois da França, foram publicados 47 números da revista Mujeres Libres: portavoz de la Federación Mujeres Libres de España en el exilio.[6] Igualmente, em finais da década de 1970, na Espanha, diferentes grupos de jovens voltavam a escolher esse nome para os espaços que estavam organizando dentro do anarquismo e, em Barcelona, a publicação Mujeres Libres reapareceu entre 1977 e 1978.[7] Em 1993, um grupo de mulheres anarquistas que se reunia na Biblioteca Popular José Ingenieros, em Villa Crespo, Argentina, voltou a utilizar essa denominação. Suas reuniões se prolongaram por quase uma década e protagonizaram diferentes atividades junto a outros grupos de mulheres — como a Comisión por el Derechos al Aborto (CDA). Entre essas iniciativas, é lembrada especialmente a primeira homenagem na Argentina aos 50 anos da publicação do livro O Segundo Sexo, de Simone Beauvoir. Como suas homônimas nos anos trinta, formaram grupos de reflexão sobre sua condição de mulheres. Em 1999, suas integrantes impulsionaram o Encontro de Mulheres Anarquistas, em Pinar, no Uruguai. Lamentavelmente, a experiência desse grupo foi recolhida pela pesquisa histórica apenas de maneira parcial [8]. Aqui, tomamos apenas alguns exemplos oferecidos por diferentes fontes que mencionam espaços militantes com a mesma denominação na Europa e América. É factível que existiram ou inclusive existam outras organizações, em diferentes partes do mundo, que também tecem seu presente com este fio do passado.[9]
Por tudo que foi dito, acreditamos que é importante celebramos a reedição deste livro – desde e para a região. Suas páginas seguem nos interpelando e nos convidam a continuar tensionando as ideias e as práticas.
Neste prólogo, tentaremos avançar sobre algumas questões que, de modo situado, poderiam renovar o interesse pela leitura de Mujeres Libres. Para isso, consideramos conveniente dividi-lo em partes com a intenção de organizar alguns debates que podem servir como apresentação e contextualização da pesquisa que sintetiza o livro de Ackelsberg – que, recordamos, data de 1991. Um bloco se propõe a ampliar o cenário da militância anarquista protagonizada por mulheres, ao repor a experiência das anarquistas que a partir deste lado do Atlântico se adiantaram a várias das questões que posteriormente veremos em Mujeres Libres. E, em seguida, em outra parte, introduzimos a figura de Anita Piacenza / Nita Nahuel, uma anarquista de origem argentina que viajou à Espanha em dezembro de 1936 como militante da Federação Anarco-Comunista Argentina (FACA) e participou ativamente da Organização Mujeres Libres. Sua trajetória política nos permite refletir sobre algumas questões vinculadas ao transnacionalismo do movimento libertário, a participação das mulheres na luta antifascista e nos processos revolucionários.
Mulheres livres aqui e ali: conexões através do tempo e do espaço

Em seu livro, Martha é explícita na intenção que a leva a indagar e visibilizar as experiências das mulheres que participaram da Organização Mujeres Libres e essa intenção evidencia seu compromisso tanto com as lutas do momento em que foi publicado como com a pesquisa feminista.
Por um lado, a obra tem como destinatárias diretas as pessoas feministas e militantes sociais das esquerdas dos Estados Unidos. Busca aproximar as experiências passadas de Mujeres Libres ao seu próprio contexto, já que, a juízo da autora, este conhecimento permitiria a seus contemporâneos problematizar suas próprias ideias e práticas. Particularmente, assinala o individualismo que predominava e a intolerância frente à diversidade cultural naqueles movimentos feministas. Quer dizer, o livro está atravessado por uma diálogo presente-passado, que se evidencia nos tópicos e na vasta bibliografia feminista estadunidense que lhe permite se ancorar em debates e problematizações contemporâneas. Mujeres Libres é uma obra que reconstrói uma experiência histórica com perguntas e motivações que surgem do presente da autora, reflexões que seguem atuais, que seguem nos interrogando.
Por outro lado, a pesquisa em si é resultado dos debates e questionamentos que, a partir das epistemologias feministas, começaram a ser formuladas em torno da construção androcêntrica e patriarcal do conhecimento. Colocar no centro da cena as experiências das mulheres como “recurso para a análise social”[10] e situá-las na luta política são duas das contribuições da pesquisa feminista à construção de saberes e ambos resultam problemáticos para uma visão positivista, universal e patriarcal, como a que ainda predomina na prática e na pesquisa científicas.
Os capítulos que conformam a obra vão desde um plano contextual, para situar a Organização Mujeres Libres em relação com a perspectiva anarcossindicalista na Espanha, até um plano particular, no qual analisa as ideias e as práticas dessa organização durante o período revolucionário, seus vínculos com outras organizações e com as pessoas companheiras de ideias.
Os testemunhos orais e os documentos escritos – em particular, a revista Mujeres Libres e diferentes materiais da CNT disponíveis no Instituto Internacional de História Social de Amsterdã – são examinados a partir de três eixos que estruturam a análise da organização: o sentido de comunidade e a necessidade das redes para o autodesenvolvimento, a capacitação e a conscientização como ferramentas para enfrentar as desigualdades em todos os âmbitos e destruir as hierarquias e, por último, a reivindicação da autonomia e a diversidade organizacionais no interior da comunidade anarquista.
Nas linhas que seguem, nos deteremos sobre este último eixo para vincular para atrás no tempo e para o sul no espaço a experiência de Mujeres Libres com a das mulheres anarquistas desta região, particularmente, a Argentina.[11] Como adiantamos, muitas das ideias e algumas práticas da organização já haviam sido colocadas por anarquistas deste país. Encontramos registro disto, por exemplo, na organização do Centro Feminino Anarquista (Buenos Aires, 1907) – por parte das anarquistas Juana Rouco Buela e Maria Collazo[12] e nos periódicos femininos La Voz de la Mujer. Periódico comunista-anárquico (Buenos Aires, 1896-1897) e Nuestra Tribuna. Quincenario femenino de ideas, arte, crítica y literatura (Necochea, Tandil, Buenos Aires, 1922-1925).
Assim como suas companheiras do outro lado do Atlântico, estas anarquistas assinalaram a necessidade de falar em primeira pessoa e receberam críticas de alguns companheiros por “dividir” o movimento. Frente a isso, responderam tornando evidentes os obstáculos que, em termos de gênero, implicavam colocar em prática o ideal e mostraram as desigualdades não só no âmbito laboral, mas também no lar e nas relações interpessoais. Do mesmo modo, compartilhavam com suas companheiras do território espanhol uma aversão pelo feminismo daquele momento e reivindicavam sua identidade como mulheres anarquistas. Sobre esta questão em particular, nos interessa destacar que, desde o fim dos anos oitenta do século XX, um grupo de pesquisadoras locais realizaram diferentes caracterizações – alinhadas com a perspectiva da História da Mulheres – enfocando sua atenção nas intervenções jornalísticas e nas biografias de mulheres ácratas. Esses primeiros trabalhos aportaram diferentes interpretações, somando adjetivos ao feminismo fomentado, segundo esses estudos, pelas anarquistas, para distingui-lo do feminismo ao qual elas se opunham.[13] As pesquisas iniciais retomaram algumas das conceitualizações trazidas por Mary Nash sobre o “feminismo proletário” de Mujeres Libres[14] e por Maxine Molyneux sobre La Voz de la Mujer. Molyneux etiquetou as ideias das anarquistas como “uma fusão de ideias feministas com orientação revolucionária e trabalhadora”[15], “anarco-feminismo latino”[16] – pela importância outorgada à maternidade – “contrafeminismo” – para dar conta “da resistência do feminismo anarquista ao feminismo burguês e reformista na busca da obtenção das prerrogativas civis e cívicas ” – [17] “o feminismo relacional” – retomando a Karen Offen –[18] . Estas foram algumas das conceitualizações que foram recriadas para caracterizar suas intervenções.
Segundo a historiadora Marcela Nari, para além da sua própria autodefinição, elas são identificadas como feministas, pois reconhecem a subordinação das mulheres em relação aos homens e tencionam transformá-la.[19] Neste mesmo sentido, elas são examinadas como precursoras das propostas do feminismo dos anos sessenta com relação a discriminação feminina e a sexualidade.[20] Tendo como antecedentes esses estudos, nos últimos tempos, pesquisas como as de Laura Fernádez Cordero abordam – a partir de uma perspectiva de gênero – os debates e as polêmicas entre “ os discursos femininos e masculinos ” e situam as intervenções das mulheres em relação e dentro do movimento anarquista. A respeito da identidade feminista, defende que “ em sentido estrito, não seria correto afirmar que as anarquistas eram feministas”, ainda que tenham antecipado ideias dos feminismos posteriores.[21]
La Voz de la Mujer vem à luz em um contexto de mudanças estruturais nas cidades portuárias, especificamente pela chegada, em fins do século XIX, de uma grande quantidade de imigrantes – provenientes de regiões da Itália e Espanha, em sua maioria – que reconfigurou a estrutura social e econômica. A incorporação ao mercado de trabalho capitalista esteve marcada pela exploração laboral, instaurada pelos baixos salários e as extensas jornadas em espaços e tarefas insalubres. Isto afetou aos homens e, com mais agudeza, às mulheres e às crianças que, dada a imposição de papéis sexualizados e hierarquizados do sistema patriarcal, foram as pessoas mais exploradas dentro das classe explorada.[22]
Essa situação diferencial foi assinalada pelas redatoras de La Voz de la Mujer, que denunciaram a opressão de classe com as desigualdades de gênero. Em seus propósitos, elas reconheceram que na sua experiência como mulheres, não apenas como trabalhadoras, seu lugar havia sido o “ da boneca, o objeto dos prazeres de nossos exploradores infames ou de nossos maridos vis”.[23] Desafiaram os seus próprios companheiros de ideias quando as acusavam de particularizar e dividir a luta do anarquismo ao situar a causa feminina independentemente da questão social, controvérsia que se repete com Nuestra Tribuna.
Como Martha analisa no último capítulo da sua obra, esta acusação também pesava sobre as anarquistas de Mujeres Libres que, ainda que não responderam de modo direto na sua revista, defenderam seu posicionamento em periódicos como Tierra y Libertad ou Solidaridad Obrera, imprensa que lhes dava apoio. Por exemplo, Mercedes Comaposada escreveu em Tierra y Libertad:
E o dia em que os companheiros estiverem totalmente convencidos de que a Organização Mujeres Libres (…) não representa uma separação da organização [sindical e/ou específica], nem significa brigas feministas, mas, pelo contrário, capacitação da mulher para um trabalho em comum, mais eficaz, tanto na Revolução como na Guerra, a nossa organização não poderá ter menos que todo o apoio moral e material que merece e necessita .[24]
Voltando às mulheres de La Voz de la Mujer, suas interpelações tinham como destinatárias suas companheiras “ de trabalho e infortúnios”, que sofriam a dupla escravidão que elas identificam com “o capital e o homem”[25]. De maneira similar, dirigiam-se a seus companheiros para denunciar que, na prática, suas atitudes no lar, no sindicato e no trabalho, não correspondiam às ideias:
“que falam de liberdade e a desejam apenas para si, que falam de anarquismo e nem sequer sabem do que se trata (…) que falam de liberdade e no lar querem ser czares”.[26]
Quando Nuestra Tribuna foi editada, os conflitos sociais haviam aumentado. No contexto dos acontecimentos da Semana Trágica em janeiro de 1919 e as greves da classe trabalhadora rural e urbana da Patagônia entre 1920 e 1922, o segundo periódico anarquista escrito e dirigido por mulheres foi publicado. Em 15 de agosto de 1922, desde a cidade de Necochea (província de Buenos Aires), um grupo organizado por Juana Rouco Buela[27] lança o primeiro dos trinta e nove números que serão editados até 1925. As duas epígrafes da primeira página resumem o propósito e o posicionamento que assumem ao fundar um periódico: demonstrar que a inferioridade mental da mulher era uma mentira teológica e anunciar que “não existe emancipação da mulher. A emancipação que nós, mulheres livres, propiciamos é social, nitidamente social”.[28] Desse modo, reafirmavam seu lugar de enunciação como mulheres anarquistas e, ao mesmo tempo, as palavras eram uma advertência para os questionamentos que poderiam surgir entre os companheiros. Nesse mesmo sentido, anos mais tarde, Lucía Sánchez Saornil – uma das fundadoras de Mujeres Libres – esclarecia no periódico Solidaridad Obrera que a Organização Mujeres Libres, além de se demarcar do feminismo, reafirmava sua tendência pública: a libertária e que seus propósitos eram “revolucionários e finalistas” .[29]
Ainda considerando os diferentes contextos de atuação, não só temporal e espacialmente, mas pela revolução social e a guerra civil que condicionavam o fazer-se de Mujeres Libres, encontramos várias coincidências entre estas e as anarquistas de Nuestra Tribuna. Ambos grupos defendiam que a educação e a independência econômica eram chaves para a emancipação das mulheres e defendiam a maternidade consciente e voluntária. Ambos grupos negaram explicitamente identificar-se ou que as identificassem com o feminismo. Com quatorze anos de diferença, o primeiro número de suas respectivas publicações advertiam sobre esta questão. Em Nuestra Tribuna expressavam: “nosso jornal é um quinzenário anarquista e como a anarquia não faz distinções de sexos, daí que já dizemos tudo; não nos confundam com feministas (…) já conhecem nossos propósitos (…) Eles são nitidamente sociais. Não se apartam daqueles que os homens que lutam pela emancipação humana já perseguem. Estamos entendidos?”[30] Mais tarde, em 1936, Mujeres Libres, em sua revista homônima, esclarecia sua posição: “mas isso é mais que feminismo. Feminismo e masculinismo são dois termos de uma só proporção; alguns anos atrás um jornalista francês, Leopold Lacour, encontrou a expressão exata: humanismo integral.[31]
O trabalho de Martha Ackelsberg destaca esta questão, o modo com o qual Mujeres Libres se separou do feminismo – não só na década de trinta. Nas entrevistas realizadas nos anos de 1980, quando o feminismo europeu já havia passado pela segunda onda, as entrevistadas seguiram renegando os feminismos. As jovens anarcofeministas que deram a Martha as primeiras pistas da existência dessa organização e do paradeiro das antigas militantes que lhe deram vida, tampouco podiam entender essa postura e até própria Ackelsberg confessa a perplexidade que essas primeiras declarações lhe causaram:
Para algumas destas questões não tenho respostas. Desconcertava-me e ainda me desconcerta o evidente mal estar de Suceso [Portales] e de outras mulheres, do motivo de fazerem “políticas” as questões “pessoais” sobre o amor e a sexualidade, por exemplo. O feminismo me convenceu de que “o pessoal é político”, e o anarquismo, por acaso, não faz as mesmas reivindicações? [32]
Uma das ácratas que, com sua pena, une à experiência de Nuestra Tribuna com a de Mujeres Libres é Federica Montseny, destacada militante espanhola e representante do setor anarquista no governo republicano.[33] Com apenas 18 anos, Federica enviou uma colaboração sobre o feminismo ao periódico Nuestra Tribuna. Em sua análise, defendia que este havia fracassado nos Estados Unidos e na França, pois não obteve avanços nos direitos políticos. Indicava que o interesse nesta questão não era como anarquista, mas como mulher e pelo que significava (não pelo fato em si mesmo). Para Federica, aquela situação era o reflexo da posição subordinada da mulher na sociedade. Essa subordinação era reproduzida por alguns companheiros de ideias que, segundo Montseny, exigiam sua absoluta emancipação apesar de que não se podia viver com uma mulher emancipada. Tudo isso, dizia, era a mostra da permanência do princípio da propriedade e da autoridade e do domínio do mais forte.[34] Como assinalou Montseny, essas reivindicações lhes eram alheias, ainda que se preocupasse com elas, porque os retrocessos e os avanços em matéria de direitos comoviam as mulheres como grupo, independentemente da sua perspectiva política. Apesar de Federica ser uma das mulheres destacadas do anarquismo espanhol, ela não foi parte orgânica de Mujeres Libres, ainda que tenha lhes dado seu apoio escrevendo para a revista e indo às atividades que a partir dali eram impulsionadas.
Realizamos este percurso e esta breve caracterização dos periódicos de La Voz de la Mujer e Nuestra Tribuna para construir entre eles e as Mujeres Libres da Espanha uma genealogia de mulheres anarquistas. Estas três experiências tem vários denominadores comuns: eram mulheres anarquistas que lutavam pela emancipação feminina, mulheres majoritariamente dos setores explorados, não se denominavam feministas e debatiam abertamente estratégias políticas e de ação com as feministas de sua época e com seus companheiros. Como militantes, tiveram a necessidade de criar espaços de mulheres dentro do anarquismo (organizações e publicações) e sua concretização as conduziu ao enfrentamento com seus próprios companheiros de tendência.
Comumente, tomamos o hábito de pensar que os anarquismos que se desenvolvem nesta região do planeta são uma reprodução, um reflexo ou uma cópia das experiências e correntes europeias.[35] Algo parecido ocorre quando tentamos delinear a História dos feminismos, do movimento de mulheres ou inclusive as dissidências sexo-genéricas. Entretanto, e ainda que seja indiscutível que a origem organizativa, a denominação e a conscientização primária de todos estes movimentos se encontrem naquelas latitudes, o que vai ocorrendo nestas regiões do mundo é parte de uma relação dialética própria dos movimentos internacionalistas nos quais as pessoas e as ideias fluem e se retroalimentam.
Na Argentina, pontualmente, arraigou-se – a partir da e na historiografia – um olhar que tem sua origem no modo com o qual as classes dirigentes de fins do século XIX e princípios do século XX categorizaram o anarquismo. Tal categorização o apresentava como um elemento estrangeiro ou não desejável da imigração. Mesmo que, posteriormente, a história social tenha revertido esse olhar pejorativo sobre o mundo ácrata, não conseguiu discutir como – para além da chegada dessa primeira onda militante – , a cultura libertária desenvolveu formas próprias nestas terras. Estratégias, posicionamentos e modos de interrogar o mundo que, muitas vezes, serviram de farol para outros grupos.
Nós, das gerações mais recentes, tentamos discutir esta ideia com nossa pesquisa e parte disso requer que nos façamos conscientes de nossas próprias condições de vida e de trabalho. Além dos escassos fundos que financiam estudos sobre movimentos sociais e culturais como o anarquismo, devemos considerar que muitas vezes o material que precisamos consultar se encontra em arquivos ou bibliotecas pouco acessíveis (principalmente por sua distância) como Europa e Estados Unidos. Por exemplo, foi graças aos esforços de Elsa Calzetta (2002) que – alguns anos atrás – tornou possível disponibilização em terras argentinas de Nuestra Tribuna. Novas formas de um velho colonialismo que também se manifesta na conservação e no acesso às fontes históricas dos movimentos políticos e sociais. [36]
Neste sentido, a digitalização da documentação e seu acesso a partir de plataformas livres rendeu grandes frutos para a pesquisa acadêmica e para a divulgação, em geral, e, por sua vez, em um exercício de coerência que muitas vezes é o fruto de trabalho militante.[37]
Livre e transnacional: Ana Piacenza em Rosário – Nita Nahuel em Barcelona

A ausência das mulheres na produção historiográfica é uma constante que quase não contempla exceções. Nas numerosas obras que fazem referência à chegada de militantes de outras regiões para combater na Guerra Civil Espanhola, ou ainda naquelas que mais especificamente falam das pessoas chegadas à frente de batalha a partir desta região do mundo, as mulheres costumam ter um papel marginal. Esta invisibilização se repete, apesar de muitas delas terem sido destacadas artífices daquela gesta.
O caso de Mika (Micaela Feldman ou Micaela Feldman de Etchebéhère) talvez seja o mais emblemático. Sua figura, geralmente, é recolhida para destacar a excepcionalidade das suas atividades na frente de batalha, tarefas que, segundo suas próprias memórias,[38] conseguiu levar adiante sem perder muitas das particularidades que historicamente foram atribuídas às condutas femininas, especialmente o cuidado e a amorosidade com os quais tratou as pessoas que foram suas companheiras.
Para além desta excepcionalidade, foram muitas as mulheres que responderam aquele apelo de solidariedade contra o fascismo e pela revolução. Interessa-nos aqui destacar a trajetória da advogada Ana Piacenza, anarquista da cidade de Rosário, província de Santa Fé, que fez parte da Organização Mujeres Libres da Espanha e, até o momento, é a única da qual temos registro.
Ana chegou a Barcelona em 28 de dezembro de 1936, junto ao seu companheiro José Grunfeld, como delegação da Federação Anarco-Comunista Argentina – FACA -, criada em 1935 (Wessels, 2005).[39] Anita e José – como a maioria da militância – viajavam com passaportes falsos – tática empregada para burlar os controles do Comitê de Não Intervenção na Guerra e que buscava evitar que armas e combatentes entrassem na Espanha. Segundo as memórias do próprio José Grunfeld, as passagens foram custeadas com seu próprio dinheiro.[40] Em Barcelona, compartilharam casa com Jacobo Prince e Jacobo Maguid, na rua de Muntaner, 514 e fizeram parte parte da comunidade argentina ou da militância do Rio da Prata, como muitas vezes preferiram se identificar. A “colônia”, como aparecia assinado em alguns documentos, tinha suas múltiplas tarefas fazer chegar até seus países de origem informações sobre o que ocorria no outro lado do Atlântico, alentar o envio de insumos e fomentar a luta contra o fascismo. Além da vasta produção escrita que desenvolveram nos numerosos meios que o anarquismo impulsionava na Espanha e da reprodução feita daqueles textos nos meios ácratas da Argentina, a correspondência enviada para a FACA é o que faz possível reconstruir as trajetórias grupais e individuais. [41]
Parte deste percurso é reconstruído por trabalhos integrais, como os da historiadora Maria Miguelañez Martinez, que analisa as redes transnacionais do anarquismo durante o período de entreguerras, especialmente da Argentina, e a conveniência entre diferentes esferas do local, da nacional e da internacional na militância ácrata. Entre outras questões de seus interessantes estudos, a autora também adverte sobre a notável presença no anarquismo que se desenvolvia na Argentina.[42] Do mesmo modo, o trabalho de María Eugenia Bordagaray (2013)[43] ressaltou uma dimensão pouco presente nestes temas: a maneira como a militância política ácrata esteve fortemente entrelaçada pelos vínculos de casal. Reconstrói para tanto, a história militante de dois casais centrais do anarquismo daqueles tempos: Ana Piacenza y José Grunfeld e Iris Pavón y Marcos Dukelsky.[44]
Nita Nahuel, nome que Anita assume na Espanha, começa a trabalhar na redação de Tierra y Libertad e Solidadaridad Obrera e se une à Organização Mujeres Libres como integrante da Federação de Barcelona, onde ocupa um lugar central. Entre as atividades que realizava, se encontravam as campanhas radiofônicas junto a Concepción Liaño, Rosa Boesa y Pilar Granjel e as excursões de propaganda oral em Montcada i Rexach, Olesa e no Ateneu Libertário do Distrito IV (Barriada 2 Les Corts).[45] Na revista Mujeres Libres, destacavam sua “cálida exaltação do sentimento feminino”. [46] Nita Nahuel assina um dos artigos mais polêmicos dessa publicação: “Os que desonram ao anarquismo”. Decidimos reproduzi-lo na íntegra, já que nossas palavras não poderiam substituir a eloquência das suas para refletir algumas das questões que viemos tentando plasmar neste prólogo.
José Ingenieros, um célebre sociólogo argentino, dizia que a emancipação da mulher depende da transformação da sociedade; que a Revolução Social traria com ela a liberdade econômica, política e sexual da mulher. Eu começo a duvidar disso. Eu começo a pensar que depois da Revolução Social, nós mulheres teremos que fazer “nossa revolução”. Existem muitos dados para nos fazer refletir sobre o tema.Vamos colocar um caso como exemplo. Na Espanha, que já está realizando e vivendo sua Revolução Social, as mulheres se encontram tão submetidas ao homem como em qualquer país burguês. Há poucos dias, foi difundida a notícia de que haviam caído quatro povoados de Aragão em poder dos fascistas. Um grupo de mulheres que se encontravam reunidas na Agrupação Mujeres Libres [de Barcelona] improvisou imediatamente uma manifestação. Uma manifestação massiva percorreu as Ramblas e chegou até a sede do governo catalão exigindo: “Armas para a frente de batalha de Aragão!”, “Menos política e mais armas!”, “Abaixo os altos salários!”, “Igualdade para todos no sacrifício!”, “Armas, armas, armas!” … Ao passar em frente à Casa CNT-FAI e à sede das Juventudes Revolucionárias realizaram vários Vivas à Revolução. Algumas companheiras que ficaram para trás presenciaram algo que dá vergonha dizer. Um indivíduo que usava um lenço vermelho e negro no pescoço começou a proferir insultos e ameaças contras as companheiras da manifestação. Uma delas se aproximou dele e lhe perguntou por que fazia aquilo. Ele respondeu que era porque tinha vontade e continuou comentando o assunto de forma agressiva e brutal, a tal ponto, que a companheira, atemorizada, teve que se retirar. Sabemos que cretinos existem em todas partes; mas o que convém saber é precisamente isto: se se trata simplesmente de um cretino ou de um fascista emboscado. Se for o primeiro caso, trataremos de averiguá-lo já, e nisso devem estar interessados também os companheiros da CNT. Se for o segundo caso, cabe, antes de tudo, arrancar a insígnia do seu pescoço e a pistola da sua cintura, para que aprenda a omitir a violência e a intimidação quando fala com as companheiras. Os trogloditas, disfarçados de anarquistas, os covardes que atacam pelas costas, os “valentes” que levantam a voz e a mão para uma uma mulher, estão mostrando sua verdadeira cara enquanto fascistas e é preciso desmascará-los. Será que depois de tanta dor e tanto sacrifício, ainda teremos que pedir licença para defender a vida daqueles que lutam nas frentes de batalha, vidas essas que nós criamos com nossa carne e com nossa angústia! Será que vamos tolerar que, depois de tanta literatura anarquista escrita exaltando a liberdade feminina, de tanto discurso libertário proclamando a liberdade de direitos, de tão longa luta emancipadora, venham “anarquistas” nos agredir porque queremos impedir, com a garantia de um armamento eficaz, a matança inútil de nossos filhos nas frentes de Aragão! Será que vão nos impedir que peguemos os fuzis com nossas próprias mãos que estão sobrando aqui para levá-los aonde fazem tanta falta! Será que os companheiros anarquistas vão permitir que se ataque, impunemente, as companheiras anarquistas! Há lenços e pistolas mal colocados e isso é preciso evitar, companheiros anarquistas![47]
O compromisso de Anita com a revolução e com as mulheres antifascistas era absoluto. Assim o expressava em um artigo publicado em Tierra y Libertad em representação das mulheres antifascistas da Argentina.[48] Do mesmo modo, esse compromisso ficou plasmado com o lugar central que teve na Organização Mujeres Libres. Por exemplo, no Segundo Congresso da Regional Catalã de Mujeres Libres, foi escolhida como uma das oradoras no ato de encerramento com Áurea Cuadrado e Lucía Sánchez Saornil. Em sua intervenção, expôs as ideias que foram publicadas no editorial inaugural do n. 1 da revista Mujeres Libres. Particularmente, assinalou as mudanças que as mulheres da Espanha experimentaram ao se desfazer da tutela religiosa e motivou a continuar na luta apesar da dor.[49]
No ano seguinte, já grávida de sua primeira filha, Anita voltou à Argentina, à cidade de Rosário, onde seguiu se movimentando, foi perseguida e detida na Prisão “Bom Pastor” por quase um ano, em 1943. Sem deixar que essa experiência conseguisse amedrontá-la, em 1946, cria junto a outras mulheres a União de Mulheres Socialistas Libertárias de Rosário, que lutava pela igualdade de direitos entre homens e mulheres, pela maternidade consciente e por direitos para as mulheres trabalhadoras. Mais tarde, e é o último registro que temos na imprensa anarquista, a encontramos como responsável de um consultório de educação sexual na publicação Luz, de Rosário.[50]
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Todas estas trajetórias, individuais e coletivas, inscrevem-se em um contexto de feitos internacionais contra o fascismo, de lutas antirrepressivas dentro dos diferentes países e também, particularmente no caso das mulheres, de luta pela obtenção de reconhecimentos da igualdade e da diferença em sociedades fortemente patriarcais. Como esperamos ter feito notar neste prólogo, a experiência de Mujeres Libres também se inscreve em um contexto de luta dentro de suas organizações – e aqui radica uma de suas particularidades.
Como anarquistas, a ação direta, a luta contra todos níveis de opressão e a importância das diferentes frentes onde estas se geram fez das suas reivindicações de gênero algo central da sua intervenção.
O livro de Martha nos aproxima de uma experiência passada e nos permite, a partir do nosso presente realizar duas operações: 1) problematizar questões que subsistem nos espaços anarquistas e feministas; 2) perguntar-nos sobre o lugar que ocupamos nesses espaços. As vozes das mulheres livres que conformam este livro, inclusive a da autora, nos aproximam de um processo de luta coletiva e pessoal, que vai além de nos contar o que aconteceu. O livro revela com grande agudeza a trama interna da pesquisa, ao aprofundar nas experiências narradas por suas protagonistas, e nos convida a compreender como estas mulheres puderam tentar, no meio de uma guerra e como parte de um processo revolucionário, construir um mundo novo.
[1] ACKELSBERG, Martha. Free Women of Spain: anarchism and the struggle for the emancipation of women. Indianpolis: Indiana University Press, 1991.
[2] ACKELSBERG, Martha. Mujeres libres: anarquismo y la lucha por la emancipación de las mujeres. Tradução Antonia Ruiz. Barcelona:Vírus Editorial, 1999.
[3] ACKELSBERG, Martha. Mulheres Livres: a guerra civil espanhola e a emancipação feminina. Tradução Júlia Rabahie. Editora Elefante: São Paulo, 2019.
[4]VICENTE, Laura. El feminismo anarquista desde sus orígenes internacionalistas a Mujeres Libres. Viento Sur, N° 136, octubre, 2014.
[5] Foram realizadas 18 entrevistas entre 1979 e os primeiros anos de 1980.
[6] BERENGUER, Sara. Entre el sol y la tormenta: revolución, guerra y exilio de una mujer libre. Colección roja y negra. Valencia: L’Eixam Edicions, S.L, 2004.
[7] ACKELSBERG, Martha, Mujeres libres. El anarquismo y la lucha por la emancipación de las mujeres. Barcelona:Vírus Editorial, 2017.
[8] GUZZO, Cristina. Libertarias en América del Sur. De la A a la Z. Buenos Aires: Libros de Anarres, 2014; edição brasileira: Libertárias na América do Sul. Tradução Alexandre Santos e Raphael Cruz. Terra Sem Amos: Teresina. 2022; BELLUCI, Mabel, comunicação com as autoras, fevereiro-março de 2021.
[9] Algumas das mulheres que integraram Mujeres Libres en Argentina foram Poema Cardella, Mabel Bellucci, Disenfeld Raquel, Frinkel Elsa, Maria Eva Izquierdo, Delmastro Susana. Bellucci, Mabel, op. cit.
[10] HARDING, Sandra.“¿Existe un método de investigación feminista?”. In:BARTRA, Eli (Org.). Debates en torno a una metodología feminista. [1987]. México: PUEG-UAM, 2002.
[11] Sobre algumas experiências de mulheres anarquistas na região consultar: CORDERO, Laura Fernández (Org.). Anarquismo, género y sexualidad en América del sur. Breve ensayo bibliográfico. Anarquismo, género y sexualidad en América del sur. Historiapolítica.com, Septiembre, 2015. Disponível em:http://historiapolitica.com/datos/biblioteca/anarquismo%2y%20genero_fernandez%20cordero%20ensayo.pdf; VALENZUELA, Adriana Palomera. La mujer anarquista: discursos en torno a la construcción de sujeto femenino revolucionario en los albores de la “idea””. Izquierdas, n.24, 2015. Disponível em: https://dx.doi.org/10.4067/S0718-50492015000300008; SEPULVEDA, Eduardo Godoy . El anarquismo y la emancipación de la mujer en Chile (1890-1927). Izquierdas, n.36, 2017. Disponível em: https://dx.doi.org/10.4067/S0718-50492017000500299; SARMIENTO, Francisca Silva. La ruta de las anarquistas: cuerpas, experiencias y diálogos anarco-feministas en Chile. 1890-1935. Monografia ( Graduação em História) – Universidad del Chile, Santiago de Chile, 2018. Disponível em: http://repositorio.uchile.cl/handle/2250/168731 .
[12] Em sua autobiografía, Juana assinala que dezenove companheiras faziam parte do Centro, que contava com espaço no sindicato dos motoristas e também eram integrantes da Federación Obrera Regional Argentina (FORA). BUELA, Rouco Juana. Historia de un ideal vivido por una mujer. Buenos Aires: s/e, 1964; edição brasileira: História de um ideal vivido por uma mulher. Tradução Fernanda Grigolin. São Paulo: Tenda de Livros, 2022.
[13] Desenvolvemos esta questão em: MANZONI, Gisela; PRIETTO, Nadia Ledesma . Pluma, aguja y barricadas. Desafiando la hegemonía patriarcal. In: VALOBRA, Adriana ( Org.). Mujeres en espacios bonaerenses. La Plata: EDULP, 2009; PRIETTO, Nadia Ledesma . Anarquismo(s) y feminismo(s). Reflexiones a partir de las intervenciones de las mujeres anarquistas, Buenos Aires (1896-1947), Izquierdas, n.34, 2017. Disponível em: http://www.izquierdas.cl/images/pdf/2017/n34/art5.pdf. Uma reflexão interessante vinculada a este problema em: VALOBRA, Adriana. El Estado y las mujeres, concepciones en clave feminista.Estudios Sociales del Estado, n.2, 2015.Disponível em: https://doi.org/10.35305/ese.v1i2.44.
[14] NASH, Mary. Mujeres libres. España (1936-19390. Barcelona:Tusquets, 1975.
[15] MOLINEAUX, Maxine. Ni dios, ni patrón, ni marido. Feminismo anarquista en la argentina del siglo XIX. In:La Voz de la Mujer. Periódico comunista-anárquico.Buenos Aires:Universidad Nacional de Quilmes, 2002.
[16] GUZZO, Cristina. Las anarquistas rioplatenses (1890-1990). EEUU: Orbis Press. 2003.
[17] BARRANCOS, Dora. Anarquismo, educación y costumbres en la argentina de principios de siglo.Buenos Aires: Contrapunto, 1990.
[18] BARRANCOS, Dora. Mujeres de “Nuestra Tribuna”: el difícil oficio de la diferencia. Mora. n.2.,1996.
[19] NARI, Marcela. El feminismo frente a la cuestión de la mujer en las primeras décadas del siglo XX. In: SURIANO, Juan. (Org.), La cuestión social en Argentina, 1870-1943. Buenos Aires: La colmena, 2004.
[20] BELLUCI, Mabel. Anarquismo y feminismo. El libertario, n° 67, 2006.
[21] CORDERO, Laura Fernandez. Amor y anarquismo, Experiencias pioneras que pensaron y ejercieron la libertad sexual. Buenos Aires:SXXI, 2017,p. 76.
[22] QUEIROLO,Graciela, Mujeres que trabajan: una revisión historiográfica del trabajo femenino en la ciudad de Buenos Aires (1890-1940), Nuevo Topo. Revista de historia y pensamiento crítico, n.3. 2006,
[23] Propósitos La Voz de la Mujer. Periódico comunista –anárquico, n° 1, 8 de enero de 1896. Cf. La Voz de la Mujer. Periódico comunista –anárquico, 2da. ed. Buenos Aires: Universidad Nacional de Quilmes, 2002,p. 43.
[24] COMAPOSADA, Mercedes. Origen y actividades de la Agrupación Mujeres Libres. Tierra y Libertad. Barcelona. 27/03/1937.
[25] La Voz de la Mujer. Periódico comunista –anárquico. Cf. La Voz de la Mujer,op. cit., 138.
[26] La Voz de la Mujer. Periódico comunista –anárquico, n°2, 31 de janeiro de 1896. Ver: La Voz de la Mujer, op.cit, 58. Análises sobre o discurso destas mulheres e às pessoas a quem eram destinados, podem ser vistas em: BELLUCI, op. cit.; MASSIELO, Francine ( Org.). La mujer y el espacio público. el periodismo femenino en la argentina del siglo XIX. Buenos Aires: Feminaria Editora, 1994; ARDANAZ, Eleonora. Mujeres que levantan sus voces: aportes para el análisis de un discurso contrahegemónico., In:Actas del II Coloquio Nacional de investigadores en estudios del discurso, Universidad Nacional del Sur, 4-6 de agosto, 2005; CORDERO, Laura Fernández. Un ejercicio de lectura sobre el concierto de la prensa anarquista a partir de Mijaíl Bajtín (Argentina, 1895-1925), Adversus. Revista de semiótica, 2013.
[27] Juana Rouco Buela foi uma militante ácrata que participou na organización sindical das trabalhadoras por meio da Federación Obrera Regional Argentina (FORA) do quinto congresso, que proclamou defender os principios económicos e filosóficos do comunismo –anárquico. Ver: PRIETTO, Nadia Ledesma; MANZONI,Gisela. Pluma, aguja y barricadas. Desafiando la hegemonía patriarcal. In:VALOBRA, Adriana ( Org.), Mujeres en espacios bonaerenses, La Plata, EDULP, 2009; ROSENFELD, Daiana; GARISTO, Aníbal. Juana Rocuco Buela. Las libertarias. Serie documental.episódio 2,Buenos Aires, Lumen cine, 2019.
[28] Nuestra Tribuna . Necochea. 15/08/ 1922.
[29] SAORNIL, Lucía Sánchez. Actitud clara y consecuente de Mujeres Libres.Barcelona. Solidaridad Obrera,11/08/1938; edição brasileira: Atitude clara e consequente de Mujeres Libres. In: SAORNIL, Lucía Sánchez. A questão feminina em nossos meios. Tradução Thiago Lemos Silva. Biblioteca Terra Livre/Editorial Eleuterio. São Paulo/Santiago. 2015.
[30] Nuestra Tribuna. Necochea.15/08/1922.
[31] Mujeres Libres. Madrid. Maio de 1936.
[32] ACKELSBERG, Martha. op. cit., 42.
[33] Federica Montseny foi Ministra da Saúde e Assistência Social entre novembro de 1936 e maio de 1937 durante o governo de Francisco Largo Caballero na Segunda República. Foi a primeira mulher a exercer um cargo ministerial na Espanha. Muitos de sus projetos de gestão, revolucionários para a época, ficaram truncados.
[34] MONTSENY, Federica. Comentarios. Nuestra Tribuna. Necochea. 15/02/1923.
[35] A análise de Laura Fernández Cordero sobre Nuestra Tribuna a partir de uma perspectiva transnacional explora os intercambios e contactos com outros países da América Latina e é um aporte neste sentido. CORDERO, Laura Fernández. El periódico anarquista Nuestra Tribuna. Un diálogo transnacional en América Latina.Anuario De Estudios Americanos.n. 74. 2017. https://doi.org/10.3989/aeamer.2017.1.10
[36] O prólogo da recente reedição de Anarquistas de ultramar contem interesantes reflexões sobre estas questões. Ver: MARGARUCCI, Ivanna; SEPULVEDA, Eduardo Godoy. Algunas reflexiones desde ultramar. In: TAIBO, Carlos. Anarquistas de ultramar. Buenos Aires, Culmine ediciones, 2019.
[37] Mencionamos alguns dos arquivos digitais e páginas consultadas para realizar este trabalho: Centre de Documentació Antiautoritari i Llibertari http://www.cedall.org/; Archivo de la Federación Libertaria Argentina (FLA) http://www.federacionlibertariaargentina.org/archivo.htm;Confederación Sindical Solidadridad Obrera https://www.solidaridadobrera.org/.
[38] ETCHEBÉRE, Mika. Mi guerra de España. Buenos Aires: Milena Cacerola y Motoneta Cine, 2013.
[39] É interessante destacar que na maioria dos trabalhos que se referen à viagem de militantes da F.A.C.A, Ana tem um papel secundário, como acompanhante de… e suas atividades e tarefas não são detalhadas em extensão, nem se destacados seus cargos políticos, como é feito com os seus companheiros.
[40] GRUNFELD, José.Memorias de un anarquista. Buenos Aires: Grupo Editor Latinoamericano, 2000.
[41] WESSELS, Astrid. Militantes Anarquistas del Río de La Plata en el Movimiento Libertario Español. Federación Libertaria Argentina. Biblioteca Archivo de Estudios Libertarios. Catálogo de Publicaciones, Folletos y Documentos Anarquistas Españoles. Buenos Aires: Editorial Reconstruir, 2005.
[42] MARTÍNEZ, María Migueláñez. Más allá de las fronteras: el anarquismo argentino en el periodo de entreguerras. Tese ( doutorado em História) Departamento de Historia Contemporánea de la Facultad de Filosofía y Letras de la Universidad Autónoma de Madrid, 2018.
[43] BORDAGARAY, María Eugenia. Luchas antifascistas y trayectorias generizadas en el movimiento libertario argentino (1936-1955)”, Cuadernos De H Ideas, n.7, 2013. Disponível em:https://perio.unlp.edu.ar/ojs/index.php/cps/article/view/2064.
[44] Tanto Anita Piacenza como Iris Pavón participaram antes e depois da Guerra Civil Espanhola das organizações antifascistas, antimilitaristas e de reivindicação da liberdade de pessoas presas por motivos políticos que impulsionaram o anarquismo na Argentina. Neste sentido, é interessante ver como o discurso antimilitarista das anarquistas contrasta, en su tom maternalista, com o tom da prédica que defenderam como e para aas mujeres em outras questoes. Sobre antimilitarismo e anarquismo na Argentina, consultar: MANZONI, Gisela. Antimilitarismo y antifascismo: particularidades de la intervención pública de las anarquistas argentinas. Cuadernos del Sur.n 41, 2012. Disponível en: https://revistas.uns.edu.ar/csh/article/view/1632/985 .
[45] Um projeto inovador por meio de mapas interativos, desenvolvido por Daniela Montellano Simón, com o software de uso gratuito de MapHub, nos permite conhecer as distintas localizações dea Organização Mujeres Libres. Detalham-se132 pontos em toda España: https://mapamujereslibres.blogspot.com/2020/10/encontrandonos-el-mapa-de-mujeres-libres.html
[46] S/f, “Actividades de la Agrupación Mujeres Libres”, Revista Mujeres Libres, Nº 8, X mes de la revolución, 1937.
[47] NAHUEL, Nita.“Los que deshonran al anarquismo”, Revista Mujeres Libres, Nº 7, VIII mes de la revolución,1937.
[48] NAHUEL, Nita.“Las mujeres de la Argentina a sus hermanas de la España revolucionaria”. Tierra Libertad. Barcelona. 15/01/1938.
[49] Solidaridad Obrera. 15/02/1938.
[50] BORDAGARAY, María Eugenia.Mujeres en el movimiento libertario argentino durante el peronismo (1946-1955),Terceras Jornadas Nacionales de Historia Social, 11, 12 y 13 de mayo de 2011,La Falda, Córdoba – Argentina. Ledesma Prietto, Nadia, op.cit.





