Imperialismo na África: da extrema violência no Congo aos Zoológicos Humanos na Europa

Joseph Conrad (1857-1924), escritor polonês naturalizado inglês, que por um breve período atuou na marinha mercante britânica, foi parar ainda jovem no Coração das Trevas, região que hoje seria a República Democrática do Congo. Coração das Trevas é o nome do seu romance, que retrata a jornada de Marlow, capitão de um navio a vapor, que fora contratado por uma companhia de comércio para subir o rio Congo, no centro do continente africano. A prosa conradiana aqui se mistura com a realidade histórica, dada a semelhança entre o livro e a biografia do autor.

Nessa história dentro de uma história, Marlow narra sua experiência no continente africano e o horror do colonialismo belga para seus colegas marinheiros. No enredo, o capitão do navio recebe a missão de ir ao encontro de uma figura controversa, de nome Kurtz, que chefiava um posto de troca muito lucrativo e que supostamente teria enlouquecido. Kurtz, para Conrad, simbolizava a falência do colonialismo europeu na África, pois seria o símbolo dessa missão civilizatória, mas que ficou louco pela cobiça predatória da riqueza, principalmente da extração de marfim, além de chefiar um regime autoritário contra os nativos.

Conrad, que criticou o imperialismo europeu, dentro de certos limites para a época, haja a visto as várias passagens racistas em seu livro, denunciou o regime obscuro de Leopoldo II da Bélgica, implantado no Estado Livre do Congo, sua colônia particular – mesmo que indiretamente, já que em seu livro não menciona diretamente o rei belga, apesar das inúmeras referências.

Assim como ele, outras dezenas, senão centenas, de jornalistas, políticos e ativistas, denunciaram também os horrores do colonialismo belga. Fotos de congoleses com as mãos decepadas como castigo por não cumprirem com o trabalho rodaram os jornais do mundo ocidental. Tal movimento internacional levou o rei Leopoldo II a perder sua colônia para o parlamento belga. Mesmo após tal medida, a brutal exploração do Congo só viria a terminar décadas depois, com sua independência, nos anos 1960.

Um colonizador belga exibe congolês com a mão amputada: o povo local era tratado com extrema crueldade.

A campanha internacional pode ser vista como o primeiro grande movimento em prol dos direitos humanos, mas que ainda escancarou suas contradições. Por exemplo, jamais discutiram as mazelas do imperialismo ou a independência do Congo, pois acreditavam que os congoleses não seriam capazes de viver sem a tutela do europeu. Fora que os ingleses ou franceses, fizeram algo semelhante em suas colônias, talvez em menor escala de horror, mas que não teve nenhuma comoção por isso.

Após a Conferência de Berlim (1885), praticamente todo continente africano fora dividido entre as nações europeias: Inglaterra, França, Portugal, Espanha, Bélgica e Alemanha correram para repartir o bolo entre elas. Seguindo o exemplo dos belgas, os alemães cometeram o primeiro genocídio do século XX, que se tem documentado, contra o povo Hereró, nativos da atual Namíbia. Enquanto colonizaram boa parte do globo, com extrema violência, essas nações europeias também organizaram as chamadas Exposições Universais, gigantescas feiras em que as potências capitalistas exibiam sua cultura, industrialização e conquistas coloniais.

Charge francesa em que Otto von Bismarck, chancelar do Império Alemão, divide a África como um bolo com os representantes de outros países europeus.

Essas feiras, que eram organizadas em um país sede, mas contavam com representações de centenas de nações, tinham caráter pedagógico e científico, mas eram sobretudo, uma forma de essas potências rivalizarem seus grandes feitos. Nesses eventos, centenas de pessoas oriundas de territórios colonizados eram exibidas como selvagens em cercadinhos ou em zoológicos humanos. Acreditava-se que esses povos deveriam ser estudados pela ciência, já que desapareceriam, pois, na lógica do evolucionismo, seriam um elo perdido da evolução.

Essas exposições reforçavam estereótipos dos povos africanos, asiáticos, indígenas americanos e aborígenes, e legitimavam o projeto imperialista e “civilizatório” – daí seu caráter pedagógico, pois, ao exporem essas pessoas como animais, encucavam na população teorias racistas pseudocientíficas muito em voga na época. A primeira dessas exposições ocorreu justamente na Inglaterra, em Londres, no ano de 1851. Mas tiveram o auge das atividades no oeste europeu e nos Estados Unidos, entre as décadas de 1875 e 1914. 

É o caso da exposição universal de Chicago em 1893, que, além de inúmeras atrações, expôs um grupo de daomeanos (do Reino de Daomé, atual Benin) como selvagens canibais, para o horror e entretenimento da população. Ou da exposição de St. Louis em 1904, uma das maiores já feitas, que exibiu, num cercadinho, congoleses trazidos especialmente para a feira. Nessas exposições era comum os espectadores brancos cutucarem ou até jogarem pedaços de pão para as pessoas ali exibidas e, por vezes, era necessário colocar uma plaquinha de “proibido alimentar os nativos”.

Um caso em especial ganhou notoriedade na época, o de Oto Benga, nativo congolês pigmeu, que possuía os dentes limados. Foi exposto na exposição universal de St. Louis junto com outros congoleses e que chegou a voltar para o seu país de origem após a feira, mas acabou novamente nos Estados Unidos em 1906, dessa vez num zoológico em Nova York, onde vivia na jaula junto com chimpanzés. Isso chocou a comunidade afro-americana nova-iorquina, cujos membros se sentiram publicamente ofendidos e passaram a exigir a guarda de Oto Benga.

Indígenas brasileiros também chegaram a ser expostos nessas feiras internacionais, ou até mesmo em território nacional, como foi o caso dos indígenas botocudos expostos na primeira exposição antropológica brasileira, realizada no Rio de Janeiro, em 1882. Havia grande expectativa da população carioca para ver o povo que resistira a confrontos por anos e que afinal acabaram se submetendo ao domínio luso-brasileiro. Uma série de caricaturas circularam pelos jornais na época repetia preconceitos e estereótipos de canibalismo, selvageria, primitivismo e inferioridade. 

Indígenas botocudos exibidos na primeira Exposição Antropológica Brasileira, em 1882. Primeira experiência de zoológico humano realizado no Brasil.

A história dos índios botocudos expostos no Rio de Janeiro, dos daomeanos expostos em Chicago e dos congoleses, inclusive Oto Benga, expostos em St. Louis, você encontrará no livro Zoológicos Humanos: Gente em Exibição na Era do Imperialismo, da professora Sandra Sofia Machado Koutsoukos, publicado pela editora da Unicamp. Assim como várias outras histórias de pessoas que foram exibidas como entretenimento para o ocidente branco em razão de sua diferença cultural e étnica. Segundo a professora Sandra, é importante que o leitor seja informado da conscientização do olhar daquele que era observado. 

No livro, a autora teve o cuidado de resgatar essas histórias com um olhar sensível, mas sem perder a exatidão histórica. Essas pessoas foram exibidas em plena era do imperialismo, que ocorreu na forma de brutalidade assassina, como foi o caso do Congo Belga, ou na forma de violência cultural e científica perpetrada por todo o ocidente branco.

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