Em 2026, o período de campanha eleitoral foi diferente em Patos de Minas. Ao contrário do clima de delírio coletivo explícito e barulhento de 2022, os bolsonaristas da vila estavam mais discretos até o pleito de 5 de outubro. O sumiço relativo dos adesivos de carros e a aparente ausência do tema nas rodas de conversa cotidianas pareciam indicar um movimento mais fraco que outrora. Possivelmente, isso se deve ao clima de “já ganhou”, disseminado nas campanhas do PT e do PL em nível nacional.
Esse clima, na campanha petista, levou a um esvaziamento das pautas organizativas, marcado por uma subestimação do potencial destrutivo do adversário e uma demora na intensificação dos atos. Quanto à mobilização da direita, você dirá, caro leitor, que prefere a paz de um bolsonarista calado ao espetáculo de estupidez panfletária que ocorre quando tentam converter pessoas para o seu culto.
Ocorre, porém, que a discrição da campanha do primeiro turno das eleições é “o silêncio sorridente de São Paulo diante da chacina”, como cantavam Caetano e Gil, ao lembrarem do massacre do Carandiru, de 1992. Em suma, esse talvez seja o novo tom do bolsonarismo: o de cumplicidade, alheamento e indiferença. Afinal, com o Messias preso, o rebanho fica pouco entusiasmado com o dublê que desmaia em debate (Flávio).
Diante, porém, do resultado desastroso das eleições, o panorama mudou na esquerda. A extrema-direita conquistou a maior bancada da Câmara, com 173 deputados alinhados (PL, NOVO, Republicanos e o nanico Missão) e potenciais 216 deputados do Centrão para apoiar suas pautas, contra 124 de centro-esquerda. No Senado, o centrão foi engolido pela extrema-direita, que contará com 36 senadores, sendo apenas 16 de centro-esquerda. Acrescenta-se a isso o fato de que o Supremo, com 4 indicações do próximo presidente da República e um Senado antagônico, transformou-se em um poder minado e mais apodrecido. Trata-se de um bloqueio evidente para a via institucional de luta da classe trabalhadora. A Presidência, nesse cenário, é um instrumento (infeliz) de redução de danos.
Em resultado disso, uma onda de consciência crítica e mobilizadora veio à tona por parte de uma juventude progressista (ainda que não hegemônica). Enquanto Paris e Madrid são cenários de enfrentamentos de classe, cidades brasileiras maiores também deram o exemplo. Fizeram isso por meio de manifestações pacíficas, de grandes proporções e repletas de apreensão com a possibilidade de um futuro negado. O que sobrou foi coragem para enfrentar as hostilidades da direita e de seus asseclas. [nota: também conhecidos como reels da Silva]
Em Patos de Minas, grupos de estudantes e movimentos sociais fizeram sua parte. Demonstrando um novo modelo de organização, marcado pela rapidez e pelo anseio de ir às ruas, fizeram um ato de considerável impacto na Praça do Coreto, neste sábado, 10 de outubro de 2026. Tendo em vista o histórico de pontuais manifestações da esquerda patense, pode-se dizer que essa foi a maior desde a pandemia.
Estudantes secundaristas e universitários, trabalhadores da educação, artistas populares, pessoas LGBTQIAPN+ e membros do movimento negro se reuniram para defender seus direitos diante da ameaça representada pela candidatura neoliberal e fascista de Flávio Bolsonaro. Os movimentos da esquerda local vieram em apoio e o protesto foi marcado pelas interações entre os manifestantes e as pessoas que passavam pelo local.
Importante dizer que, em um dado momento, houve um incidente, no qual uma das provocações feitas por bolsonaristas cruzou o limite: um carro de som com dois marmanjos em sua carroceria passou pela Avenida Getúlio Vargas. Um deles desceu para provocar os manifestantes, que reagiram na mesma moeda e houve um princípio de confusão rapidamente contido.
Em nossa cidade, o bolsonarismo é representado por um carro ao estilo “paredão de som”, circulando para silenciar sua oposição. Os grupos de esquerda, por sua vez, ficaram representados pelo grito “Trabalhador, olha pra cá, eu tô na rua para o seu filho estudar!” É um chamado para que o cidadão se importe, um chamado ao rompimento com a apatia e a indiferença que sustentam o poder da classe dominante.
Assim, a cobertura destinada ao evento pelo portal Patos Notícias dá um exemplo de amadorismo no registro das imagens, preguiça na checagem dos fatos e versões e ausência total de qualquer vislumbre de análise crítica. Isso tudo, como de costume, sob uma máscara de “imparcialidade” que não convence nem os comentaristas anônimos de sua página. Além disso, a página de fofocas “Patos lá de Minas” também expressou, em seu falso mineirês, sua cumplicidade com a tática do instagrammer José Luiz Borges, que dançou como um playboy que acabou de descobrir o baile funk, desconcertado em sua incapacidade de coordenação motora – mas ganhou uma menção na publicação da página oficial, que sempre se coloca a serviço de transformar política em entretenimento de qualidade duvidosa – novamente, nenhum “sinalzinho” de raciocínio crítico, apenas circo de redes sociais.
Diante disso, é importante ressaltar a necessidade da manifestação como um fato simbólico para a reunião dos diferentes grupos da esquerda local. Ela abre espaço para redes de apoio e organizações populares. Por isso, mais importantes que o segundo turno das eleições são as possibilidades abertas para a luta em todas as frentes.


